Zizinho, o mestre que inspirou o garoto Edson Arantes a ser Pelé



Filho de seu Thomaz, começou sendo chamado de Thomazinho. Logo passou a Zizinho. E não demorou para que aquele garoto nascido em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, e radicado em Niterói, mostrasse que o seu grande futebol. Com menos de 16 anos, começou a treinar no Byron e convocado para integrar a seleção da cidade num amistoso contra o poderoso Fluminense. Mesmo com um time misto, a expectativa era de que os tricolores goleassem sem maiores problemas.


O início, com logo dois gols de cara, só confirmou o que todos esperavam. Até que Zizinho comandou a reação. Marcou um gol, fez a jogada do outro e foi o destaque da partida. O 2x2 foi comemorado como um título pelos niteroienses e a fama daquele garoto franzino começou a chegar na capital.


O meia tentou a sorte no América, onde o seu corpo franzino não o deixou ficar. No São Cristóvão, a habilidade de garoto atrevido irritou um zagueirão, que deixou as travas da chuteira tatuadas na sua coxa e assustou Zizinho. As duas decepções consecutivas o impediram de nutrir maiores expectativas quando surgiu a oportunidade de fazer teste no Flamengo. O time de 1939 era cheio de astros, da grandeza de Leônidas da Silva e Domingos da Guia, e comandado por um técnico exigente como Flávio Costa.


Mas não faltou confiança a ele quando chegou para o seu primeiro no rubro-negro. No banco, enquanto o treino se desenrolava, traçou um plano. Como teria pouco tempo para jogar no meio daquelas feras, era preciso ser ousado. Levar para cima, driblar e não largar mais a bola. Só assim poderia ser notado.


Quando Leônidas se machucou, seu Flávio Costa deu a ordem para que o garoto de Niterói entrasse no time. E ele executou com perfeição o que havia planejado. Bastava a bola bater no seu pé para só sair após inúmeros dribles e em chutes potentes. Boquiaberto, o treinador mandou Zizinho voltar no dia seguinte. E nos outros também.

Aos 19 anos, já era campeão brasileiro defendendo a seleção carioca. Em 1942, estreava por outra seleção, a brasileira, no Campeonato Sul-Americano. Mas a primeira, de várias polêmicas que marcaram a sua carreira, aconteceu em outra competição, no mesmo ano. Franzino, Zizinho aprendeu desde cedo a encarar de frente a violência dos becões.


Muitas vezes, revidando à altura. Num desses trocos, quebrou a perna de um jogador da seleção de São Paulo, durante a final do Brasileiro de seleções. Ganhou uma suspensão e passou a ser taxado pela imprensa paulista de ‘desleal’.


CONTESTADO

Embora contido nas atitudes, não fosse de ficar falando mal de ninguém em entrevistas ou gostasse de criar mal estar, ele era firme nas suas convicções e defendia o que acreditava sem fazer média com ninguém. Isso fez com ele fosse o jogador mais contestado da sua época. Jamais por causa do seu futebol. Dentro de campo, Zizinho era incontestável. Além de levar o Flamengo a conquistar o seu primeiro tricampeonato (1942-44), virou dono absoluto de uma vaga no ataque da seleção brasileira.


Títulos cariocas e nacionais de seleções, foram vários. Faltava a ele um Sul-Americano, já que, em virtude da Segunda Guerra Mundial, não houve copas do mundo naquele período. A taça, primeira e única, internacional veio apenas em 1949, na competição que hoje se denomina Copa América, realizada no Brasil.


No ano seguinte, os torcedores do Flamengo foram pegos de surpresa com a venda do seu principal jogador para o Bangu. Ninguém acreditava que o clube da Gávea pudesse se desfazer do seu craque, negociando-o com um clube muito inferior em relação a tradição, títulos e torcida. Anos depois se soube dos bastidores desta transação, que envolveram interesses profissionais do presidente rubro-negro da época, Dario de Melo Pinto, advogado da família que administrava a extração da Loteria Federal.


Para renovar a concessão, seria necessário o OK do Ministro da Fazenda, Manuel Guilherme da Silveira, pai de Silveirinha, não por acaso presidente do Bangu. Ligando os pontos, entendesse como Zizinho, revoltado com a falta de consideração do Flamengo, terminou indo parar no Bangu.


O presidente rubro-negro pagaria caro pela transação. Na semana seguinte ao anúncio da negociação, Zizinho soprou a brasa da indignação da torcida ao marcar duas vezes e ser o melhor em campo na decisão do Brasileiro de seleções com o 4x0 sobre os paulistas. Em julho, faria pior. Estreou em um amistoso contra o próprio Flamengo, marcou uma vez e ajudou os seus companheiros a marcarem os outros da histórica goleada do Bangu por 6x0.


CRAQUE DA COPA

Antes disso, aconteceu a fatídica copa do mundo. Zizinho, contundido, ficou de fora das duas primeiras partidas. Voltou na decisiva, da primeira fase, contra a Iugoslávia. O Brasil precisa vencer de todo jeito. Foi uma das melhores apresentações de Zizinho na seleção. Marcou um gol e deu o passe para Ademir marcar o outro. Nas goleadas sobre a Suécia e Espanha, ele também foi o melhor em campo.


Até na final contra o Uruguai, onde os seus companheiros não se encontravam em campo, ele fez um grande jogo. Mesmo com o Brasil chorando o Maracanazzo, a imprensa internacional elegeu Zizinho como craque daquele mundial, chamando-o de ‘gênio’ e comparando-o suas jogadas e gols com obras de Leonardo da Vinci.

Nos sete anos em que passou no Bangu, Zizinho não conseguiu ser campeão carioca, apenas do Rio-São Paulo de 1951. Mas para o time de um jogador só, estar entre os quatro melhores do Rio numa época em que os grandes clubes eram recheados de craques, já era um feito e tanto. Ele voltaria a vestir a camisa da seleção brasileira no Pan-Americano de 1952, no Chile, não fosse um problema que teve na próstata. O seu retorno aconteceria no ano seguinte, durante o Sul-Americano, em Lima.


NOVA POLÊMICA

Teria tudo para ser um retorno feliz. Não foi, e o craque ainda ficou marcado por algumas histórias mal contadas que chegaram ao Brasil. Primeiro, foi uma reivindicação dos jogadores quanto a uma premiação que a CBD daria por vitória, e que Zizinho assumiu o papel de porta-voz junto ao chefe da delegação José Lins do Rego. O escritor paraibano mandou telegrama para a sede da entidade comunicando o fato como se a reclamação fosse individual, não do grupo, e partido de Zizinho. A notícia chegou logo aos jornais cariocas com tanta velocidade quanto estranheza.


O craque do Bangu nunca fora dado a cobrar bicho ou qualquer outro tipo de premiação. Era tido como aquele que pouco se preocupava com dinheiro, ou criava problema para renovar contrato. Mas teria sido até bom se a fama que criaram para Zizinho parasse aí. Ao longo da competição, ele sofreu uma distensão muscular e ficaria de fora de um jogo decisivo, contra o Chile, se não tivesse sido obrigado a entrar em campo com a coxa enfaixada, na base do sacrifício.


Mesmo assim, fez gol, deu passes pros outros e foi o melhor em campo, campo que deixou chorando de dor na vitória por 3x2. O técnico Aymoré Moreira e José Lins do Rego ainda o forçaram a iniciar o jogo contra o Paraguai. Não aguentou mais do que alguns minutos e foi substituído. O Brasil perdeu por 1x0, resultado que forçava uma partida extra contra os mesmos paraguaios a fim de definir os campeões. Finalmente, Zizinho se negou a entrar em campo naquela situação. A seleção perdeu novamente a partida e o título.


O treinador e o chefe da delegação assinaram um relatório a ser entregue à CBD acusando os jogadores de exigirem dinheiro para entrar em campo e Zizinho a fazer corpo mole na decisão. Ele foi punido e afastado da seleção, sendo apontado como um mau exemplo para as novas gerações. De nada adiantaram as palavras escritas por ele numa carta em sua defesa e endereçada aos jornais. Já perto de morrer em 2001, Mestre Ziza publicou o livro Verdades e mentiras no Futebol, contando em detalhes algumas polêmicas em que se envolveu ao longo da carreira, em especial, a do Sul-americano.


A VOLTA

Zizinho ficou de fora da Copa de 1954, mas quem perdeu foi o Brasil. Dois anos e sete meses depois da punição, o técnico Flávio Costa, o mesmo que o havia lançado no Flamengo, agora na seleção, o convocou de novo para a disputa da Taça Osvaldo Cruz, diante dos mesmos paraguaios da final do Sul-Americano de 1953. Toda celeuma criada pela tropa de choque da CBD na época voltava à tona. Do banco de reservas, assistiu a um chato 0x0 durante todo o primeiro tempo. No intervalo, Flávio avisou que ele entraria no lugar de Vavá. O meia acabou com o jogo. Com seus dribles e passes perfeitos, com os seus dois gols e a participação decisiva no terceiro, marcado por Sabará.


Daquele dia em diante, Zizinho não mais seria responsabilizado pelo que acontecera no Sul-Americano de 1953 e seria convocado para toda seleção brasileira enquanto estivesse jogando futebol. Como escreveu João Máximo: “Pois a verdade ali estava, clara, não em relatórios que nada diziam, mas na força do futebol de um dos maiores craques brasileiros de todos os tempos”.

Em 1957, Zizinho teve um desentendimento com o técnico Gentil Cardoso e o presidente Fausto de Almeida. Então o Bangu resolveu negociar o craque. Melhor para o São Paulo, que acabara de trazer o técnico Bella Guttman, o húngaro que havia formado algumas das melhores equipes da Europa, entre elas o Real Madri, de Puskas, o Benfica, de Eusébio, e o Milan. Bella pediu a contratação de Zizinho, que estreou na vitória por 4 x2 no clássico contra o Palmeiras, iniciando uma sequência de invencibilidade que levou o tricolor ao improvável título paulista daquele ano.


Zizinho, Mestre Ziza para muitos, o jogador que Pelé queria ser quando era pequeno, morreu no dia 8 de fevereiro de 2002, aos 81 anos.



FICHA TÉCNICA


Gigantes do futebol brasileiro

João Máximo e Marcos de Castro

Editora Civilização Brasileira (2011)

438 páginas