Vavá, o símbolo da bravura em 1958, segundo Nelson Rodrigues



“Eis a verdade: o Brasil estava devendo a todos nós uma vitória como a de ontem, isto é, uma vitória degaulleada. Vencemos contra tudo e contra todos. Contra os franceses, contra os bandeirinhas, contra o juiz e contra A Marselhesa.”

Assim começa a crônica do nosso homenageado do mês Nelson Rodrigues, após a seleção brasileira enfiar 5x2 nos franceses, pela semifinal da Copa do Mundo da Suécia, em 1958. O seu destaque da partida, apesar do garoto Pelé ter marcado três vezes, foi o atacante Vavá.

Nem sempre, o Personagem da semana, nome da coluna assinada por Nelson na Manchete Esportiva, era exatamente aquele jogador que fazia mais gols ou, por critérios objetivos (aliás, nosso cronista odiava a objetividade), teria sido mais efetivo na partida.


Não, sempre havia algo por traz do óbvio que era enxergado por ele. E numa condição inversa, diante da Rússia, quando Vavá marcou duas vezes, foi Garrincha, pelo baile que deu nos amedrontadores russos, tão exaltados na época, que ganhou o brilho rodriguiano.


“E notem: bastava um empate. Mas o meu personagem da semana não acredita em empates e se disparou pelo campo adversário, como um tiro. Foi driblando um, driblando outro e consta, inclusive, que na sua penetração fantástica, driblou até as barbas de Rasputin”, escreveu na sua coluna do dia 21 de junho.

Uma semana depois, Nelson voltava a escrever sobre o seu personagem da semana. O estádio Rasunda estava abarrotado de franceses, que cantaram vigorosamente, em tom intimidador, A Marselhesa, antes da bola rolar. Intimidava também a linha de frente da seleção deles: Kopa, Fontaine e Piantoni.


O ponteiro dos minutos não havia dado ainda a sua segunda volta no cronômetro, no entanto, quando Vavá recebeu um lindo passe de Didi, por cobertura, e chutou com ira. “Arrombou as redes adversárias”. Foi o gol da coragem, da bravura, segundo Nelson.


“Há quem diga, inclusive, patrícios nossos: ‘O Brasil não tem caráter. O Brasil não tem moral’. Mas olhem Vavá. Não tem medo de ninguém, medo de nada. Se for preciso, ele dará a cara para o inimigo chutar (...) Ora, é desse peito largo e inexpugnável que o escrete brasileiro sempre precisou”. Não à toa, o atacante ficou conhecido como Peito de Aço.

Vavá era um meia quando iniciou a carreira no América-PE, em 1948. Teve passagem, bem de passagem mesmo, pelo Íbis. Foi apenas uma partida pelo juvenil do Pior time do mundo, e talvez por isso a inclusão deste jogo no seu currículo o deixasse um pouco contrariado, como revelou em entrevista ao Diario de Pernambuco em meados de 1998.


No juvenil do Sport, o meia começou a jogar mais adiantado, foi campeão estadual da categoria e começou a chamar a atenção do Vasco, bem satisfeito com o histórico de outro jovem contratado junto ao rubro-negro pernambucano: Ademir de Menezes. Em 1952, Vavá seguiu o caminho do conterrâneo e também virou ídolo.


Mas foi na Copa de 1958 que ele passou a fazer história na seleção brasileira. Na Suécia, marcou cinco gols e conquistou o primeiro título mundial. Feito repetido quatro anos depois, no Chile, desta feita deixando sua marca mais quatro vezes. Os nove gols em copas o faz ser o terceiro maior goleador da seleção, ao lado do próprio Ademir e Jairzinho. Perde somente para Pelé e Ronaldo.


Mas Nelson lembrava do Peito de Aço como algo bem além da objetividade dos números. Para o cronista, o seu papel na Copa da Suécia foi fundamental para a primeira conquista nacional de uma copa. E olhe que ser fundamental numa equipe que tem Didi, Pelé e Garrincha, não é para qualquer um.


“Creiam que Vavá, com sua bravura louca, traduz, como eu já disse, um perfeito, um empolgante símbolo dessa coragem e desse escrete”.

Meu personagem da semana: Vavá está no excelente livro abaixo (páginas 402 e 403) e já citado em postagem anterior como o mais completo, com todas as crônicas de Nelson Rodrigues publicadas na Manchete Esportiva, de 1955 a 1959.



FICHA TÉCNICA


O berro impresso das manchetes

Nelson Rodrigues

Editora Agir (2007)

540 páginas