Uma visão crítica, e ácida, de uma das melhores seleções brasileiras



Costuma-se dizer que o comentarista de futebol é feito aquele engenheiro que só aponta os erros de uma construção depois que o prédio está pronto. Em muitos casos, cabe a comparação. Jamais em relação a João Saldanha, nosso personagem do mês que estaria fazendo neste dia 3 de julho 102 anos. A dica de livro da semana mostra que ele não era dos que esperam o apito final do juiz para apontar o dedo.


O trauma da bola, a Copa de 82 por João Saldanha reúne crônicas publicadas no Jornal do Brasil entre 3 de março e 27 de agosto. Ou seja, pouco mais de 90 dias antes da abertura do mundial da Espanha e 16 dias depois da final, ou o período que vai da reta final da preparação da seleção brasileira, passando pela copa em si e a repercussão (e explicações) da eliminação brasileira.


Na condição de quem se preparava para cobrir a sua 12ª copa (faleceu durante o mundial da Itália de 1990, o que seria o seu 14º) e montou a melhor seleção brasileira de todos os tempos (sendo demitido às vésperas da Copa do México por motivos não relacionados ao futebol), Saldanha criticava duramente diversos erros cometidos durante a fase preparatória e os jogos em Sevilla e Barcelona.


Como por exemplo a demora na definição do time-base da seleção a menos de três meses da copa. A teoria do ‘aqui não existe titulares e reservas’, defendida por Telê Santana, gerava insegurança nos jogadores e transformava os coletivos entre os times A e B em batalha campal. O excesso de treino físico realizado durante a fase preparatória era outro ponto criticado por Saldanha, temendo a possibilidade de que alguns deles ‘estourassem’, como Careca ‘estourou’ e não foi à Espanha por causa de uma distensão muscular.


As crônicas publicadas no JB e reunidas em O trauma da bola vão muito além da seleção brasileira e da copa que estava para acontecer. Saldanha conhecia e muito o futebol internacional, as seleções e seus jogadores, assim como viajava no tempo, indo do mundial de 1954 para o de 1938, entremeando histórias e personagens com os de 1958, 1966, 1970...

Destes paralelos, ele buscava argumentos para criticar o técnico da seleção pela insistência com centroavantes tidos como trombadores, estilo Serginho, Roberto Dinamite e Baltazar.


Saldanha defendia um camisa 9 como Careca ou Reinaldo, extremamente técnicos que se entenderiam fácil com craques do quilate de Júnior, Cerezo, Falcão, Zico e Sócrates.

Careca, contundido, estava fora dos planos, mas Reinaldo, de acordo com o cronista, fez o time voar em alguns amistosos, mas foi esquecido na convocação. Para Saldanha, era incoerente levar um time leve e talentoso do meio para frente e ter um centroavante trombador, com pouca mobilidade, acostumado, em seus clubes, ao time jogar em função dele. “A bola bate nele e volta”, previu.


Ele defendia antes, durante e, de forma mais exaltada, depois da copa, que Telê armasse o time sem um camisa 9 de ofício, com Paulo Isidoro, jogando na direita, e Zico e Sócrates se reversando pelo meio. Aliás, a entrada do então meia do Grêmio, que fazia bem a função de falso ponta, foi cobrada e muito por Saldanha durante os jogos.


E não apenas pelo aspecto técnico. Taticamente, era necessário ocupar aquele lado. Não precisava ser um ponta de origem, segundo ele, mas alguém que fechasse o setor, ajudasse na marcação e não sobrecarregasse o lateral Leandro. O rodízio previsto na teoria entre Zico, Sócrates e Falcão pela direita, na prática, não estava acontecendo. Este, inclusive, foi um dos maiores pecados de Telê durante a copa e que culminou na derrota para os italianos, classificado por João Saldanha como ‘estupidez siderúrgica’.


Quando se fala da seleção brasileira de 1982, de imediato, brotam do nada dois grupos extremistas: os que acreditam que aquele time foi o melhor de todos os tempos, que chegava perto da perfeição, e os que desdenham daquela geração, os que acham que não adianta jogar bonito e perder, que Telê era um perdedor etc.


Em O trauma da Bola fica claro que Saldanha passava longe desses dois grupos radicais. Ele era um cara que defendia a qualidade técnica em primeiro lugar, gostava do jogo bonito e limpo, mas achava que o time precisava também saber se impor de outras formas quando o adversário abusava da violência, da catimba. Que era preciso ter um pouco de malícia, como a que Pelé teve na Copa de 1970, ao agredir um uruguaio que se preparava para lhe descer o sarrafo pela milésima vez. “Foi uma cotovelada defensiva”, como definiu o ex-técnico do camisa 10.


O livro O trauma da bola vale e muito a leitura por trazer de volta um período tecnicamente muito rico do futebol brasileiro, falar sobre uma das maiores seleções de todos os tempos, que ficará lembrada para sempre apesar de não ter vencido a copa, de uma forma muito crítica, ácida, às vezes, na percepção de um dos maiores craques da crônica esportiva nacional.



FICHA TÉCNICA


O trauma da bola, a Copa de 82 por João Saldanha

João Saldanha (coletânia de crônicas)

Editora Cosac & Naify

206 páginas