Tim, de El Peón a O Estrategista, a vida de um cracaço da camisa 10



Em um país onde a métrica do torcedor muitas vezes passa, quase que exclusivamente, pelos títulos conquistados, se foi campeão de copa etc e etc, perde-se a dimensão da grandeza de tantos craques que por aqui brilharam e fizeram com que o futebol seja o que é hoje. É o caso de Elba de Pádua Lima, ou simplesmente Tim. Um meia de dribles mágicos, passes cirurgicamente precisos, não importando se curto ou longo, um artista na batida na bola para o gol. ‘Mas ele não ganhou nada pela seleção brasileira...’


A vida de Elba, cujo apelido veio da irmã que ainda não conseguia pronunciar o seu nome e o chamava repetidas vezes de Ti, Ti, começou na pequena Rifaina, perto de Ribeirão Preto, para onde a sua família se mudou quando tinha seis anos de idade.


Sua magreza, aos 12 anos, fazia a sua mãe o proibir de jogar futebol, o que acontecia às escondidas. Mas a aparente fragilidade de Tim não o impediu de seguir adiante na carreira. Aos 15 anos já era titular da meia cancha do Botafogo, o que perdurou por três anos. Foi quando trocou Ribeirão Preto por Santos, a convite da Portuguesa, que pagaria 500 mil réis de salário. 300, dos quais, eram enviados para ajudar a mãe.


No ano seguinte, no caso 1935, Tim já era o craque da lusa santista, convocado para a seleção paulista e responsável direto pelo título brasileiro conquistado na final contra os cariocas. Mas o grande momento daquele jovem magrelo viria na temporada seguinte, chegando à outra seleção, a brasileira. Durante o Sul-americano, com atuações primorosas, ganhou a admiração da imprensa e do público argentinos, e o primeiro dos apelidos que o acompanharia para o resto da vida.


Tim era o condutor da seleção brasileira, aquele que recebia a bola no meio de campo e encaminhava a sua equipe para dentro da defesa adversária, determinando o ritmo, a intensidade e suas variações, assim como fazia o peão nos pampas argentinos, levando a imensa boiada, de uma fazenda a outra, com total controle.

Foi chamado de El Péon. E não por ser o driblador, aquele girava e botava os adversários na roda, como os brasileiros preferiram acreditar ter sido a origem do apelido. Sob a condução de Tim, o Brasil derrotou o Peru, o Chile, o Paraguai e o poderoso Uruguai por 3x2. Só não conseguiu passar pelos donos da casa e ficou com o vice-campeonato.


A saudade fez com um dos craques do Sul-americano abrisse mão da renovação com a Portuguesa em 1937. Voltou para Ribeirão Preto e se deu férias de quatro meses para ficar com a família. Até que em um belo dia, Tim abriu a porta da casa e por ela entrou um emissário do Fluminense trazendo uma proposta tentadora.


20 contos de réis de luvas e um conto de salário mensal, valores que permitiriam fazer com que a saudade da mãe e das irmãs não fosse mais motivo para brecar a sua carreira. Do interior paulista, Tim partiu para a então capital federal de mala, cuia e toda a sua família.


Seu futebol vistoso logo seduziu a todos no Rio de Janeiro. Ou quase todos. No ano seguinte, já estava embarcando no navio da delegação brasileira rumo à França, onde seria disputada a Copa de 1938. O único problema era que Tim não contava com a simpatia do técnico Ademar Pimenta, que por não ter coragem de barrar o craque inquestionável para colocar Perácio, seu protegido, apelou para uma solução bizarra.


Chamou o reserva Zezé Procópio e determinou que ele descesse o sarrafo em Tim. Afinal, machucado, ele não poderia entrar em campo e Perácio ficaria em seu lugar. De tanto apanhar, até o tranquilão meia perdeu as estribeiras e revidou à altura as porradas. Levou bronca de Pimenta e também respondeu na lata. Foi multado, ameaçado de corte, mas quando conseguiu que Zezé contasse a verdade, os cartolas da confederação foram obrigados a deixar essa história pra lá.


Só o técnico não deixou e sacrificou a seleção com a ausência de Tim. Somente no terceiro jogo, contra a Tchecoslováquia, ele entrou em campo. Nem mesmo a vitória por 2x1 fez com que fosse mantido para encarar a Itália, que derrotou os brasileiros também por 2x1. A seleção terminaria na terceira colocação no mundial após derrotar os suecos por 4x2.


Tim e seus companheiros voltaram ao país com a sensação de que poderiam ir mais longe. Qualidade para isso, havia de sobra, com El Péon, Leônidas, Romeu e cia. Faltou seriedade e competência no comando técnico durante a copa que antecederia a Segunda Guerra Mundial e o longo período sem que a competição fosse realizada.


Tim encerrou a sua carreira de jogador em 1949, um ano antes da copa no Brasil, e as lembranças não muito agradáveis da França foram as únicas que o meia guardou dos mundiais. O que não impediu que ele viesse a ser um dos melhores do país com a camisa do Fluminense, e um dos gigantes da história do clube.


Mesmo encarando a implicância de outro técnico, Flávio Costa, foi campeão brasileiro de 1943 e 45 com a seleção carioca. Tim passou ainda pelo São Paulo e pelo Botafogo. Já nos últimos suspiros enquanto jogador, iniciou paralelamente a carreira de técnico no Olaria e no Botafogo de Ribeirão Preto, onde tudo havia começado, e ainda aproveitou o resto da fama conquistada nos sul-americanos para jogar e treinar equipes na Colômbia, que no final dos anos 1940 era quem melhor pagava no continente.


Após a Copa de 1950, o Tim, agora exclusivamente técnico de futebol, retornava ao país também para entrar no hall dos melhores. Nem sempre, aquele jogador cerebral, com inteligência acima da média e uma visão de jogo extraordinária consegue se transformar em um técnico igualmente diferenciado. Ele conseguiu e na nova função ganhou o outro apelido pelo qual também carregaria pelo resto da vida: O Estrategista.


Além de profundo conhecedor do futebol e suas nuances técnicas e táticas, a enorme capacidade de lidar com os seus atletas, os quais tratava como irmãos mais novos e não como padrasto malvado, foi outra marca do Tim treinador. Aparentemente, os problemas com os técnicos turrões e mal educados que encontrou pelo caminho o ensinou como não se devia fazer.

O Estrategista treinou o Bangu, o Guarani, a seleção carioca e, finalmente, o Fluminense, clube que o projetou como atleta e pelo qual faria história também na função de técnico, a começar pelo título estadual carioca de 1964, a sua primeira temporada no retorno às Laranjeiras. Vinte anos depois, aos 68 anos, Elba de Pádua Lima faleceria, deixando uma história e tanto para ser contada, e reverenciada, para todo o sempre.