Telê Santana e o início de carreira de técnico: três títulos em três anos



O Atlético estava de volta ao Maracanã, no dia 19 de dezembro de 1971, agora para decidir o título nacional, o primeiro Campeonato Brasileiro de futebol. Quatro meses antes, o time de Telê Santana venceria a sua primeira partida na competição: 1x0 no Flamengo, pela terceira rodada, após empates em 1x1 contra o América, no Mineirão, e Grêmio, no Olímpico.


Apesar de um início de carreira pra lá de promissora, o jovem treinador não vivia uma situação confortável. Dúvidas pairavam sobre a sua competência. Até certo ponto natural, por se tratar de um iniciante. Mas só até certo ponto apenas. Telê havia iniciado a carreira de técnico dois anos antes, no Fluminense, clube ao qual havia dedicado longos anos enquanto jogador.


De cara, conquistou o campeonato carioca de 1969 – abrindo um parêntesis: enquanto treinador do juvenil do Flu, em 1967, Telê havia assumindo interinamente os profissionais no estadual, retornando em 1968 para a categoria de base. Só na temporada seguinte, ele seria efetivado. Mesmo assim, não de imediato.


Após a saída de Evaristo de Macedo, a diretoria do tricolor lembrou novamente do técnico do juvenil como uma solução caseira e imediata, enquanto negociava com Almir de Almeida, então no Coritiba. Mas os resultados iniciais do interino fizeram com que os cartolas mudassem a estratégia. Telê assumiria de vez e Almir ficaria com a supervisão de futebol.


Contando com promissores pratas da casa recém-incorporados ao profissional, o Fluminense fez uma grande campanha no estadual, que naqueles tempos chegava a durar quatro meses. Em 18 jogos, o time perdeu apenas duas partidas. O jogo que decidiu o título antecipado foi nada menos do que um Fla-Flu, um dos mais marcantes da história do clássico.


Diante de mais de 170 mil torcedores, os tricolores abriram vantagem de 2x0, sofreram o empate, mas Flávio fez o terceiro e a equipe de Telê Santana levantou a taça. Outra taça seria erguida pelo mesmo time, do mesmo técnico, com gol salvador do mesmo Flávio, cerca de dois meses depois: a Taça Guanabara, desta feita após uma vitória sobre o América por 1x0.


Em uma situação normal, um início de carreira para dar moral a qualquer treinador. Mas desde aquela época, Telê já era turrão. Não admitia a falta de respeito com os profissionais do futebol, por parte da diretoria, e, na mesma medida, era inflexível com o desrespeito dos profissionais do futebol com ele. Casos de indisciplina eram intoleráveis. O técnico entrou em rota de colisão com os cartolas e, na dividida, ele caiu fora das Laranjeiras.


Telê mal havia esquentado a cadeira de comentarista de uma emissora de televisão quando recebeu o convite para treinar o Atlético Mineiro. Sua contratação foi questionada em Belo Horizonte. Em parte por causa de um certo prestígio do seu antecessor, o irreverente Yustrich. Em parte, pela sua pouca experiência na função.


A torcida do Galo não aguentava mais ver o seu rival dar voltas olímpicas. O Cruzeiro era pentacampeão mineiro, tinha um timaço, recheado de craques como Tostão, Dirceu Lopes, Piazza, Zé Carlos. Demorou para que aquele jovem técnico pudesse provar que poderia acabar com a hegemonia da Raposa em Minas.


Aos poucos, foi conquistando o grupo de jogadores com o seu jeito firme, mas respeitoso, com muito diálogo. O oposto do que eles estavam acostumados. Yustrich buscava impor o respeito dos atletas na base da grosseria. Mas, para o lado de fora, a imprensa e a torcida, algumas medidas tomadas por Telê eram questionadas. Como no caso de Dario.


O ídolo dos atleticanos voltou do México com o tricampeonato mundial da seleção brasileira e estendeu as comemorações em Belo Horizonte. Farras demais, treino de menos, fizeram com que o camisa 9 ganhasse quilos além do normal e perdesse a forma física rapidinho. A solução encontrada por Telê foi meter Dario no banco de reservas. O técnico foi metralhado por críticas.


Até que o ídolo se tocou e voltou a treinar de verdade para recuperar a posição. Diante do Fluminense de Araguari, no Mineirão, um gol inesperado do visitante e a contusão de Vaguinho, fizeram com que a torcida do Galo pedisse, ou melhor, exigisse, a entrada do folclórico goleador em campo.


“Dario, dê uma satisfação a essa torcida que ainda acredita em você”, foram as palavras ditas por Telê, como o próprio atacante conta no livro Dadá Maravilha, momentos antes dele entrar em campo e fazer os cinco gols da virada.

A campanha do Atlético foi bem superior a do rival e o título inédito no Mineirão começou a ser desenhado na primeira vitória sobre o Cruzeiro no novo estádio: 2x1, dois gols de Dario. No derradeiro clássico da competição, o 1x1 foi o suficiente para que o Galo desbancasse o rival e iniciasse uma nova fase de supremacia em Belo Horizonte.


A exemplo do que fez no Fluminense, o técnico também promoveu a passagem de alguns jogadores do juvenil para o profissional e o time foi ganhando corpo. Na Taça de Prata, ou Robertão, de 1970, o Atlético fez parte do triangular final da competição, ao lado de Palmeiras e Fluminense. O campeão foi o ex-time de Telê, montado por Telê.


A temporada seguinte seria marcante para o futebol nacional. Tratava-se do primeiro campeonato brasileiro. A equipe Telê, que vinha passo a passo rompendo a barreira da desconfiança, entrava forte na nova competição. Na primeira fase, terminou em segundo do grupo B, com a mesma pontuação do Grêmio, mas com uma vitória a menos.


Na fase seguinte, ficou em primeiro do seu grupo e garantiu vaga no triangular final. O primeiro jogo foi contra o São Paulo. Aos 30 minutos de segundo tempo, Oldair quase faz o Mineirão vir abaixo ao marcar o gol dos atleticanos. Com a vitória dos tricolores paulistas sobre o Botafogo (4x1), no Morumbi, bastava ao Galo um empate diante dos cariocas no Rio para botar a mão na taça.


Mas já naquela época, o time de Telê não se contentava com empates. Aos 16 minutos do segundo tempo, Humberto Ramos, um dos que foram promovidos do juvenil para o profissional pelo treinador, fez jogada pela esquerda e cruzou para Dario fazer o gol do título do primeiro campeonato brasileiro da história.


Foi assim que o Mestre Telê Santana iniciou a sua carreira de técnico. Em três anos, um carioca, um mineiro e um brasileiro. E ainda diziam que ele era perdedor. Vai entender...


Foto: Globoesporte.com



FICHA TÉCNICA


Fio de esperança, biografia de Telê Santana

André Ribeiro

Editora Gryphus (2000)

476 páginas