Telê Santana: De goleiro frangueiro à invenção do novo camisa 7


Terceiro filho homem de João Veríssimo e Corina, Telê Santana nasceu na pequena Itabirito, cidade entre Belo Horizonte e Ouro Preto e lá viveu sua infância e adolescência. E lá conheceu os campinhos improvisados de terra batida, as traves de cacos de tijolos e pedras, as bolas de meia e borracha. De pelada em pelada, aos 8 anos, começou a jogar pelo Itabirense, um dos times locais, que rivalizava com o União.


A sua primeira experiência jogando fora de casa, em Sabará, pode-se dizer que foi determinante para que aquela criança viesse a se transformar em um grande jogador de linha, uma das maiores revelações do Fluminense nos anos 1950. O time do então goleiro Telê sofreu uma sonora goleada para o Siderúrgica: 13x0.


O técnico da equipe, que manteve aquele frangueiro no time até o vexame em Sabará por consideração ao pai, João Veríssimo, este sim, um grande goleiro do Itabirense e com passagem até pela seleção mineira, perdeu a paciência e a esperança de que o menino viesse a imitar o pai e determinou que daquele dia em diante ele iria jogar na meia direita.

O futebol brasileiro, mais especificamente o Fluminense e sua torcida, têm esta dívida com o treinador Júlio Couto. Jogando como meia direita, depois centroavante, Telê começou se destacar no Itabirense. Aos 11 anos já atuava no infantil.


Não demorou para que aquele magrelo logo estivesse levando vantagem sobre adolescentes mais pesados e corpulentos do juvenil. O Itabirense ficou na lembrança depois que precisou se mudar para São João Del Rey e passou a defender, juntamente com alguns irmãos o América Recreativo, onde não precisou da influência do pai, dono e fundador, para ser titular. Telê era o craque do time. Da cidade.


NAS LARANJEIRAS

Aos 18 anos, determinado a se tornar um jogador de futebol foi fazer um teste no juvenil do Vasco. De cara, entrou no treino contra os titulares do time principal. Pela frente, Barbosa, Ipojucan, Heleno de Freitas, nomes que ele ouvia bastante nas transmissões da Rádio Nacional, em São João Del Rey. Dentre eles, Ademir de Menezes, o seu grande ídolo. Telê se intimidou, não foi nem a sombra do que poderia ser. Pegou sua mala e voltou para a casa da família, em Minas.


Mas o Rio voltaria a ser visitado em breve, em um novo teste. Desta vez, nas Laranjeiras. Telê treinou bem no juvenil do Fluminense numa quinta. No domingo, marcou cinco gols em jogo amistoso, em Bonsucesso, e precisou da assinatura do pai João Veríssimo para firmar o seu primeiro contrato com o tricolor no final de 1949. No início da temporada seguinte, o Botafogo tentou leva-lo, sem muito sucesso. Foi no Flu que se sagrou campeão juvenil carioca de 1950, como um dos destaques da equipe.


No time principal, no entanto, a situação era completamente diferente. O time terminou o Carioca na sexta colocação, obrigando a diretoria a fazer uma enorme faxina no elenco para a temporada seguinte. Zezé Moreira foi chamado para reconstruir a equipe. Do meio para trás, teve muito trabalho. Do meio para frente, nem tanto. O material humano que havia sobrado era de excelente qualidade: Orlando Pingo de Ouro, Calyle, Didi e Joel.


Faltava apenas um ponta direita para fechar o quinteto. Zezé foi procurar no time juvenil campeão e terminou fazendo o convite a Telê, que cumpria muito bem o papel de meia, às vezes de centroavante. Nunca havia sido ponta. Enxergando a oportunidade de entrar na equipe principal, o garoto de Itabirito não titubeou e disse que jogava até no gol. O técnico tricolor preferiu manter Castilho com a 1 e deu a 7 para aquele magricela que ganhava apelidos dos companheiros de ‘esqueleto de borboleta’, caveira e banquete de cachorro.


Mas não seria por sua constituição física que Telê seria lembrado logo naquele início de campeonato carioca. Na tentativa de se adequar à nova posição, ele terminou criando uma forma única, até então, de atuar como um ponta direita, afinal, ele não era um driblador nato, daqueles que entortavam nos laterais e chegavam com facilidade na linha de fundo para o cruzamento. Telê passou a recuar para ajudar na marcação e, principalmente, no desarme. Tanto que passou a ser conhecido como ‘carrapato’, ampliando o leque de apelidos, desta vez em virtude do seu desempenho em campo.

O 7 do Flu corria o campo todo, o tempo todo. E aparecia na área para finalizar com muita qualidade, fosse de cabeça ou pegando de primeira, ou ‘sem pulo’, uma das suas especialidades.

Comandado pelo cracaço Didi, o Flu do artilheiro Carlyle e do primeiro falso ponta direita do futebol brasileiro, Telê Santana, fez uma excelente campanha no Carioca, chegando à decisão em dois jogos com o Bangu. Na primeira partida o pau comeu. Todos brigaram. E o tricolor saiu com a vitória, 1x0, gol de Orlando Pingo de Ouro. No segundo e último jogo, sem poder contar com Carlyle, suspenso, Zezé Moreira deslocou Telê para atuar no centro do ataque. Ele fez os dois gols da vitória e o Fluminense conquistou o título de 1951.


FICHA TÉCNICA

Fio de esperança, biografia de Telê Santana

André Ribeiro

Editora Gryphus (2000)

476 páginas