Sim, Pelé e Tostão podiam (e deviam) jogar juntos! Só Saldanha enxergou


João Saldanha assumiu a seleção brasileira em meio a um tsunami de pessimismo. A frustração com a campanha na Copa da Inglaterra de 1966, após dois títulos mundiais consecutivos, era realimentada todos os dias por um pensamento que martelava e martelava a cabeça do torcedor nacional: se até Pelé vivia um mau momento, o que dizer do resto da equipe. Sim, o 10 do Santos, que vivera o seu esplendor técnico e físico de 1957 a 1965, dava os seus primeiros sinais de declínio na carreira.


Talvez por causa disso tudo, a CBD tenha escolhido para comandar a seleção um técnico com muita popularidade, contador de história, fantasioso, um comentarista esportivo que jogava na televisão, no rádio e nas colunas de jornal. E que entendia e muito de futebol. Ao assumir o cargo, fez o que os cartolas dele esperava. Com seu jeitão espontâneo e autêntico, tratou de levantar o astral do torcedor, e logo apelidou seus jogadores de ‘Feras’. Eram as ‘Feras do Saldanha’.


Na primeira entrevista como treinador, não ficou de enrolada e já foi logo escalando a sua formação titular, nada muito diferente do que todos estavam esperando. A não ser por um detalhe: Pelé e Tostão como titulares. Pouco depois, procurou o craque do Cruzeiro e foi direto ao ponto: “Qual a sua dificuldade na seleção?”.


“Todos os técnicos acham que tenho de ser o reserva de Pelé, e penso que poderíamos jogar juntos”, explicou Tostão.

“Você é titular absoluto, mesmo que jogue mal várias partidas seguidas”, assegurou o novo técnico, que viu, em junho de 1969, o renascimento do futebol brasileiro. Era um amistoso, no Maracanã, contra a então campeã do mundo, a poderosa Inglaterra. Vitória da seleção por 2x1, com Tostão marcando o primeiro e fazendo toda jogada para o segundo, marcado por Jairzinho.


A seleção partiu para as eliminatórias com confiança resgatada, Pelé voltando a jogar em altíssimo nível com mais regularidade e com um novo companheiro lá na frente que se sagrou o artilheiro da competição. Tostão marcou os dois gols contra a Colômbia. Diante da Venezuela, em Caracas, foram mais três dele e dois do Rei. E por aí foi o Brasil de Saldanha e suas feras até o jogo final contra o Paraguai, no Maracanã. Bastava o empate, mas a seleção venceu com um gol de Pelé, diante de 183.341 pagantes, recorde oficial do estádio.


A história é contada pelo próprio Tostão, em Tempos vividos, sonhados e perdidos, um olhar sobre o futebol, onde o genial atacante do Cruzeiro e da seleção brasileira, e que virou craque também como colunista, comentarista esportivo e escritor, dedicou o capítulo 3 ao homenageado do mês do Blog 12 Gomos: João Saldanha, o humanista.


Esta é daquelas bolas quicando de frente pro gol que não tem como não chutar: relembrar o grande João Saldanha, durante o mês que seria do seu aniversário, a partir de relatos, divinamente escritos, de um outro monstro sagrado do futebol nacional. É muito privilégio!



FICHA TÉCNICA


Tempos vividos, sonhados e perdidos, um olhar sobre o futebol

Tostão

Companhia das Letras (2016)

195 páginas