Sócrates: o último exemplar dos supercraques que não era um atleta


É inimaginável hoje, no final do primeiro tempo, um jogador se dirigir para os vestiários e antes mesmo de tomar um gole de água, sacar do seu armário um maço de cigarros para, em seguida, dar longas e demoradas baforadas de fumaça, enquanto relaxa e ouve a preleção do seu técnico. Hoje, sim. Mas houve épocas em que a cena podia ser até corriqueira.


Dos tempos em que o aspecto físico não era determinante numa partida de futebol e o talento, a técnica e a criatividade definiam os grandes craques de suas épocas, que, por sua vez, definiam seus jogos, surgem imagens de atletas fumando nos vestiários. Como a clássica foto de Johan Cruyff, sentado num banco de madeira, com a mítica camisa da seleção holandesa, cigarro no bico e uma nuvem de fumaça quase lhe cobrindo o rosto.


E se havia espaço para tragos de nicotina nos intervalos das partidas, há de se imaginar que se tratasse de um hábito corriqueiro fora do vestiário. O próprio Cruyff já admitiu que fumava até 20 cigarros por dia. E tinha os supercraques do passado que faziam tabelinha do cigarro com bebida alcoólica, às vezes, nas madrugadas que antecediam os jogos. Na Holanda, na Alemanha, no Brasil...


Por aqui, talvez o último jogador fora de série que se manteve firme e forte na conciliação de alguns vícios ao longo da carreira, e tenha inclusive pago com a própria vida por eles, foi Sócrates. O craque surgido no Botafogo de Ribeirão Preto, ídolo do Corinthians e peça fundamental numa das mais fantásticas seleções brasileiras da história viveu o início de um período em que a preparação física passou a predominar. O camisa 8 nadou contra a correnteza.


Conhecido por trocar os treinos de musculação por sucessivas rodadas de chopp no boteco mais próximo, sem deixar de ter entre os dedos um cigarro, que antes de apagar acendia o próximo, Sócrates deu muita dor de cabeça às comissões técnicas do Corinthians. Após o título paulista de 1979, o treinador Jorge Vieira, que já havia comandado o ‘Doutor’ em Ribeirão Preto, foi obrigado a ceder uma antiga reivindicação do craque.


Toda quinta-feira à noite, Sócrates ganhava o seu green card para o paraíso, que se chamava boate Gallery. Mas a condição estabelecida pelo técnico era que o próprio Jorge Vieira o acompanhasse nas noitadas e que o jogador obedecesse ao ouvir “está na hora de ir pra casa”. Esta segunda parte nem sempre acontecia prontamente. Mas foi assim que o então treinador do Timão foi conduzindo a sua relação com o craque da equipe, e um dos melhores do país naqueles derradeiros anos de 1970.


Mas Jorge Vieira não iria durar para sempre no Corinthians. A programação no Gallery, não se limitando mais às quintas, no entanto, era de lei. Em 1981, com Osvaldo Brandão no comando, um senhor já com mais de 70 anos, o clube precisou convocar um outro acompanhante para o 8 corintiano. Como conta Tom Cardoso em Sócrates, a história e as histórias do jogador mais original do futebol brasileiro, a missão coube ao diretor jurídico do clube, Antônio Jurado Luque.


Numa quarta-feira o Corinthians tinha um jogo importante contra o Botafogo de Ribeirão Preto, no Pacaembu. Sócrates resolveu sair na véspera, quem sabe para celebrar antecipadamente o encontro com o ex-clube. Ou não. Nem precisava de motivo. Luque foi com o ‘Doutor’ sabendo que não teria a mínima condição de controlar o craque. Às quatro da manhã, tentou convencê-lo a ir embora, mas, óbvio, não foi atendido. Somente às 10h, deixou o seu teimoso carona em casa.


À noite, Sócrates foi o melhor em campo na vitória por 2x0 sobre o Botafogo, com direito a um lindo gol, um dos seus mais belos: lençol no zagueiro dentro da área e um sem-pulo, antes que a bola tocasse no gramado, de canhota no canto do goleiro.


O craque da camisa 8 do Timão também era o craque da camisa 8 da seleção brasileira. Além de capitão. E com Telê Santana, tinha uma relação de total respeito e admiração. Foi na fase preparatória e durante a Copa da Espanha que ele viveu o seu momento profissional, obedecendo as regras impostas, submetendo-se a um rigoroso trabalho físico, abrindo mão das noitadas, do cigarro e do chopp.


“Existe o Sócrates que jogou no Botafogo, no Corinthians, na Fiorentina, no Flamengo, e o Sócrates que jogou a Copa de 1982. Ele se tornou, em três meses de preparação para o Mundial, um outro jogador, um atleta”, conta no livro o seu companheiro de seleção brasileira Júnior.

O então lateral esquerdo do Flamengo estreou na seleção junto com o meia do Corinthians, em 1979. “Ele era um menino, mas tinha fôlego de veterano. Eu vivia pegando no pé dele por causa do cigarro. Ele dizia: ‘Porra, capacete, mas você também fuma’. Mas eu fumava dois cigarros por dia, ele fumava dois maços”.


Jogar pela seleção brasileira, ainda mais sob o comando de Telê, era um dos maiores prazeres para Sócrates no futebol. E disputar uma copa do mundo, nem se fala. Por isso, o esforço fora do comum para vencer os vícios, especialmente, a dependência da nicotina. Por parar de fumar, ele se apresentou na Toca da Raposa para os treinamentos visando a copa com 8 kg acima do seu peso normal.


Comeu o pão que o diabo amassou com o exigente preparador físico Gilberto Tim, que dedicou atenção exclusiva a Sócrates, a pedido de Telê. “Ele sofreu muito durante os treinamentos. Chegou a vomitar no gramado algumas vezes. Foi uma dedicação comovente. E valeu: ele chegou voando na Espanha”, completou Júnior.


E Sócrates fez uma copa impecável mesmo. Não foi apenas aquele jogador cerebral, de uma visão jogo extraordinária, de toques desconcertantes e de finalizações precisas. Ele também correu muito, ocupou espaços, cumpriu taticamente seu papel na equipe. E deu muito brilho a uma seleção maravilhosa, que mesmo sem o título, nunca deixará de ser inesquecível.


FICHA TÉCNICA


Sócrates, a história e as histórias do mais original jogador do futebol brasileiro

Tom Cardoso

Editora Objetiva (2014)

248 páginas