Rivellino vira camisa 11 e o mundo passa a conhecer a 'Patada atômica'



“Estou ferrado, não vou jogar”, lamentou Edu, aos cochichos com Rivellino. “Que é isso? Você joga com Pelé no Santos e é titular da seleção”, retrucou de primeira, o amigo, surpreso. “Mas no esquema que ele gosta eu não me encaixo”, justificou de bate-pronto o ponta esquerda.


O ‘ele’, responsável pela lamentação do santista, era Mario Jorge Zagallo, que estava sendo apresentado ao grupo de jogadores da seleção brasileira, às vésperas da Copa do México, substituindo João Saldanha.


Edu foi tão preciso na sua análise quanto era nos dribles. Zagallo iria escolher alguém que pudesse vestir a 11 e soubesse recompor o meio de campo, ajudando na marcação, como próprio técnico fez enquanto jogador na conquista dos títulos mundiais de 1958 e 1962.


Riva poderia se encaixar na função de falso ponta, mas a preferência era de outro craque, Paulo César Caju, homem de confiança do treinador desde o Botafogo. E foi o que se viu nos amistosos finais antes do embarque para Guadalajara. PC começava e, no máximo, Rivellino entrava no decorrer do segundo tempo. E nem sempre na vaga de Caju. No penúltimo teste, diante da Bulgária, no Morumbi, ele substituiu Clodoaldo.


Mas no derradeiro amistoso em solo brasileiro antes do check in para o México, Zagallo resolveu dar a 11 a Rivellino. E ele não devolveu mais até a conquista do tricampeonato. Foi no dia 29 de abril, no Maracanã. Aos 12 minutos do segundo tempo, ele recebeu de Gérson pela direita, arrancou, deu um corte para o meio e soltou a bomba de canhota.


O goleiro da Áustria se esticou todo, ainda triscou na bola, mas ela foi decidida ao encontro da rede. Era o gol da vitória, o gol do ‘cheguei para ficar’. O passaporte do jovem craque do Parque São Jorge estava carimbado como titular. Riva foi o 11 nos três amistosos contra combinados mexicanos (o de Guadalajara, o de Leon e o de Irapuato) antes da estreia no mundial.


No dia 3 de junho, o lotado estádio Jalisco viu a Tchecoslováquia fazer 1x0. Mas foi ao delírio mesmo quando um jovem de bigode ajeitou a bola, na entrada da área, para a cobrança de uma falta. Riva soltou a pancada de canhota, no canto onde estava o goleiro Viktor, que cometeu o pecado de dar um leve passo para a esquerda no momento do chute. Impossível chegar a tempo naquela bola cheia de velocidade e efeito. Nascia ali o apelido A patada atômica.



FICHA TÉCNICA


Rivellino

Maurício Noriega

Editora Contexto (2015)

208 páginas