Quando Zizinho encontrou um 'Garrincha' que jogava pelo lado esquerdo



A situação não estava boa no Bangu. Queriam colocar Zizinho para jogar no time de aspirantes, “para esfriar o sol do Maracanã”, como dissera um diretor do clube na época. Ora, Zizinho já era Zizinho, e com 36 anos de idade. Tudo por causa de um desentendimento com o técnico Gentil Cardoso, que havia proposto uma tabela de gratificação aos jogadores e, após ser pressionado pelo presidente do clube, voltou-se contra o próprio grupo.


Foi quando surgiu o interesse para defender o São Paulo no restante da temporada 1957. Ele nem pensou direito. Numa escala na capital paulista, após defender a Seleção brasileira (na verdade, um combinado de jogadores de times medianos do Rio) no empate em 2x2 contra a Argentina, em Buenos Aires, Zizinho soube que o acordo entre os clubes estava firmado.


Nem seguiu viagem. Por lá mesmo ficou, pegando suas malas e se dirigindo de imediato para a concentração do Tricolor, que jogaria dois dias depois contra o Palmeiras. Embora contasse com um bom time e com um dos melhores técnicos do planeta na época, o húngaro Bella Gutmann, o São Paulo não estava bem na tabela do Paulistão. Faltava algo para a equipe engrenar. Era Zizinho.


Na chegada ao novo clube, foi buscar informações sobre os seus novos companheiros com aqueles que já conhecia. Era amigo do goleiro Poy e do zagueiro Mauro. Do futuro bicampeão mundial pela Seleção (1958 e 62) vieram as dicas mais preciosas. Zizinho quis saber como jogavam algumas peças do setor ofensivo, a quem o meia teria como missão servi-los.


- O Maurinho e o Amauri você pode lançar em profundidade. O canhoteiro, não. Você tem que dar no pé. Ele vai ameaçar o pique e voltar para receber.


- E esse Canhoteiro é bom jogador?


- Ziza, você jogou com poucos pontas iguais.


A bola nem precisou rolar tanto assim no clássico para que Zizinho começasse a entender o que Mauro dissera. O que ele não entendia era como um jogador com tamanha habilidade e facilidade para o drible, sempre em altíssima velocidade, fosse um mero desconhecido no Rio, no resto do país. A associação à Garrincha era inevitável para um carioca como ele. Canhoteiro fazia o que Garrincha fazia, só que pelo lado esquerdo.


O camisa 11, segundo o Mestre Ziza, não era apenas o melhor jogador daquele timaço do São Paulo. Era o melhor do estado. Vale salientar que o Paulistão contava com grandes craques na época, inclusive um garoto de 16 anos que iniciava a carreira no Santos e que naquele mesmo ano de 1957 se tornaria pela primeira vez artilheiro da competição.


Se o entendimento do veterano meio campista com o restante da equipe foi excelente, com Canhoteiro chegou perto da perfeição. A dupla protagonizou uma daquelas histórias do futebol que o tempo é incapaz de apagar. Zizinho estreou com vitória no clássico com o Palmeiras (4x2), três dias depois, goleou o XV de Piracicaba (7x1). O próximo confronto era contra o Santos, desta vez, fora, no temido alçapão da Vila.


Seria o terceiro jogo de Ziza em uma semana. Para quem não estava no melhor da sua forma devido ao boicote que vinha sendo submetido no Bangu, e lógico, pela idade avançada, o camisa 8 entrou em campo já sentindo alguns sinais de cansaço. Mas os ignorou. E jogou como nunca, como quase sempre. E não somente ele. O time inteiro. Foi um baile no forte Santos dentro do seu caldeirão (6x2).


Em dado momento, com o jogo sob controle e o adversário já incapaz de reagir, Zizinho confessou a Canhoteiro o cansaço e pediu que o companheiro prendesse um pouco mais a bola. O camisa 11 cumpriu à risca. Driblava um, dois, três e sofria falta. Zizinho cobrava para ele que partia até a linha de fundo, driblando, depois voltava até o meio, também driblando, até sofrer outra falta. E assim o Mestre pode respirar enquanto o endiabrado ponteiro passeava pela Vila.


O São Paulo de Zizinho e Canhoteiro seguiu atropelando adversários e recuperando o terreno perdido no começo da competição. Chegou à última rodada precisando de uma vitória contra o Corinthians, que dependia apenas de um empate, para se tornar campeão. Os tricolores ganharam por 3x1, um dos gols marcados pelo Garrincha paulista que jogava do lado esquerdo.