Quando Dario virou o jogo da vida e transformou vaias em idolatria



A história de Dario é única no futebol brasileiro: nenhum jogador tão grosso e desengonçado como ele conseguiu tanto sucesso na carreira, virou ídolo inconteste de grandes torcidas e estabeleceu marcas inalcançáveis durante os 21 anos enquanto profissional. E não foi por mero acaso, um lance de sorte. Aliás, nada na vida dele caiu do céu. Foi tudo na base da extrema superação e perseverança.


Aos cinco anos presenciou a mãe botar no fogo próprio corpo e morrer carbonizada. Cresceu internado em casas de assistência a menores, conheceu desde cedo a marginalidade, buscou no futebol a salvação. E encontrou. Mas até se tornar bicampeão brasileiro, ser três vezes artilheiro do campeonato nacional, levantar oito taças de competições estaduais e ter até no currículo um título mundial com a seleção brasileira, comeu o pão que nem o diabo quis comer.


Chegou a jogar por um prato de comida no Campo Grande, após implorar por uma chance no time do subúrbio carioca. Prometera ao técnico Gradim que, se dessem alimentação, a equipe ganharia um goleador. Foi a primeira promessa cumprida dentre tantas que fez na carreira. E cumpriu. De canela, de bico, trombando com um zagueiro aqui, outro acolá. Não importava como, se a bola fosse morrer na rede adversária.


Seus gols, mesmo feitos de forma atabalhoada, chamaram a atenção de um diretor do Atlético Mineiro e ele foi parar em Belo Horizonte. O sonho de jogar em um time grande estaria começando a ser realizado se, ao chegar ao clube, não sofresse tanto preconceito e humilhação. Foi logo taxado de bonde, perna de pau. Os próprios companheiros o escanteavam. Assim como os técnicos Aírton Moreira e Freitas Solisch, que mal deram chance para ele treinar no time reserva. E assim se passou mais de um ano no Galo.


As coisas começaram a mudar quando Yustrich assumiu o comando do time do Atlético. Apesar da fama de durão, de ter pouco jeito no trato direto com os comandados, o técnico puxou Dario para uma conversa. Às reclamações de poucas oportunidades de treinar, de ser desprezado pelos companheiros, Yustrich reagiu de imediato.


Abriu espaço para o magrelo trombador no time reserva e mandou Lola e Ronaldo, que logo passariam a ser os primeiros amigos de Dario no Galo, meterem bola para o centroavante. Os gols começaram a brotar nos treinamentos da equipe e Yustrich passou a leva-lo para o banco de reservas.


Em dois jogos fora de casa, contra Valério e Tupi, entrou nos minutos finais. Marcou quatro vezes e garantiu duas vitórias para o Atlético. Seu oportunismo abriu uma vaga para o time titular, que logo na sequência encararia um amistoso de grandes dimensões. O Galo receberia a seleção da União Soviética, então uma das melhores equipes da Europa.


Era jogo de casa cheia. Mais de 53 mil torcedores alvinegros marcaram presença no Mineirão e entoaram uma das maiores vaias que o estádio já presenciou após o locutor anunciar o nome do camisa 9 que começaria jogando. Do vestiário, ouviu-se em alto e bom som. As pernas de Dadá começaram a tremer, bambeando se dirigiu ao técnico e disse que não queria entrar em campo, que ele colocasse outro em seu lugar.


Yustrich pegou o atacante pela gola da camisa, o empurrou na parede, deu três tapas no rosto e disse que se Dario não entrasse em campo ele o cobriria de porradas. Chorando, o centroavante subiu as escadas do túnel e pisou no gramado. Lá dentro, o som das vaias era ainda mais ensurdecedor. E continuou depois que o árbitro deu o primeiro sopro no apito.

Mas sabe como é o futebol, né? Aos 3 minutos de jogo, Ronaldo cobrou um escanteio e Dadá, no que o próprio garante ter sido a maior impulsão que conseguiu dar na carreira, subiu bem mais alto que a defesa russa e cabeceou para fazer 1x0. O primeiro gol de Dario no Mineirão, diante uma poderosa seleção mundial, apenas brecou as vaias.


Era preciso mais. Aos 28, Tião foi até a linha de fundo pela esquerda e cruzou. O centroavante do Atlético meteu a cabeça, o zagueiro, o pé. A bola foi para a rede dos soviéticos e a chuteira do adversário rasgou o supercílio do atleticano. Dadá saiu de campo de maca para ser atendido e nem pode comemorar o seu segundo gol na partida. A URSS diminuiu no segundo tempo, com Metreveli, e o amistoso terminou em 2x1.


Ao final, com a bandagem na testa ensopada de sangue, ele foi, enfim, procurado pelos repórteres de rádio e deu um recado à torcida. Pediu paciência, disse que era acostumado a jogar para menos de cinco mil pessoas e que estava diante de mais de 50 mil, que a camisa do Galo pesava mesmo. E prometeu que viria a ser o maior ídolo clube. O jogo começava a mudar para Dario.


FICHA TÉCNICA

Dadá Maravilha

Editora Del Rey (1999)

Flávio Lúcio Machado

224 páginas