Parabéns ao senhor Pelé, de 79 anos, rei do futebol desde os seus 17



Dia de reverenciar (como se os outros também não fossem!) o maior e mais completo jogador que este planeta já viu: 23 de outubro é aniversário de Pelé, hoje um senhor de 79 anos. Mas vamos falar de um garoto que aos 17 já recebia a coroa de rei, consagrado por atuações fantásticas, gols tão improváveis quanto belos, e um título de copa do mundo.


A trajetória de Pelé, entrando para a história do futebol ainda como menor de idade, poderia ter sido outra. Durante a reta final de preparação para a Copa de 1958, o camisa 10 do Santos ainda não era titular da seleção nacional dirigida por Feola. No dia 18 de maio, diante da Bulgária, ele e outros sete reservas ganharam a oportunidade de começar a partida.


Entre os sete, Garrincha. A dupla iniciava na tarde daquele domingo no Pacaembu uma longa escrita de invencibilidade. A partir do amistoso contra os búlgaros, jamais a seleção brasileira perderia um jogo quando Pelé e Garrincha estivessem juntos em campo. Os ‘reservas’ não fizeram feio: 3x1, com dois de Pelé e um de Pepe (quatro dias antes, contra a mesma Bulgária, no Maracanã, os titulares haviam vencido por 4x0).


De última hora, antes do embarque para a Europa, a CBD inventou de encaixar mais um amistoso. Sim, os jogos-caça níqueis já existiam. Era um amistoso contra o Corinthians. Não foi uma boa ideia. Além de fugir da programação estabelecida anteriormente pela comissão técnica, era diante de um time cuja torcida estava na bronca com a seleção de Feola, que não havia relacionado o ídolo Luizinho Pequeno Polegar para defender o país na Suécia.


A seleção brasileira foi vaiada como nunca. Menos mal se este fosse o único problema. Numa disputa de bola, o joelho de Pelé foi atingido em cheio por um chute do corintiano Ari Clemente. O 10 da seleção que ganhara uma nova chance no time de Feola caiu no chão, urrando de dor. O massagista Mário América nem esperou o juiz chamar. Partiu em disparada para atendimento dentro de campo.


O lateral do Timão, que ficaria estigmatizado para o resto da sua vida como o jogador que quase tirou Pelé da copa de 58, explicou mais de mil vezes que não havia tido maldade no lance, que iria chutar a bola quando o atacante da seleção se antecipou, que havia sido um acidente etc. O joelho do craque ficou bastante inchado e o seu corte da lista de jogadores que iriam ao mundial foi discutida, pela primeira vez, nos vestiários do Pacaembu.


Entre toalhas e mais toalhas escaldadas para aplicar no local da contusão, o supervisor Carlos Nascimento bombardeava o médico Hilton Gosling perguntas sobre as chances de Pelé jogar a copa. A situação era grave, mas até mesmo pela sua idade, havia uma chance de recuperação. Era o que respondia o iluminado doutor. Na presença de Feola, bateram o martelo: esperariam até o dia 30 de maio, data final da Fifa para alterações na lista de jogadores inscritos.


No dia 29, Pelé apenas assistiu a seleção brasileira golear a equipe da Fiorentina nos amistosos finais antes do mundial. Viu, e deve ter rido muito, das peripécias de Garrincha ao driblar meio time adversário e, mesmo com o gol escancarado, ter preferido dar uma nova finta de volta no zagueiro, entrando com bola e tudo nas redes italianas.


O ponta, mesmo sem entender, afinal era um amistoso, estava 3x0 e já passava dos 30 do segundo tempo, ouviu bronca de companheiros dentro de campo e foi chamado de moleque por Carlos Nascimento nos vestiários. Falou-se na época que a brincadeira de Garrincha quase o tirou do Mundial. Na biografia Estrela Solitária, um brasileiro chamado Garrincha, o escritor Ruy Castro conta que não teria chegado a tanto, ficado apenas nos puxões de orelha.


Até mesmo porque a comissão técnica da seleção tinha algo mais importante para se preocupar. Ainda nos vestiários do Estádio Comunale, em Florença, a ‘junta’ composta por Hosling, Nascimento e Feola faria uma nova avaliação no joelho de Pelé. Passara uma semana do jogo com o Corinthians e o local da contusão ainda se encontrava bastante inchado. O prazo da Fifa vencia no dia seguinte.


O substituto já estava escolhido: Almir Pernambuquinho, que inclusive estava na Europa, excursionando com o Vasco. Desiludido, o próprio Pelé pediu para que fosse mandado logo de volta ao Brasil. O futebol brasileiro (e o mundial, por que não?) deve muito, no entanto, ao médico Hilton Gosling.


Naquele momento em que era a sua palavra que decidiria definitivamente a parada, como que iluminado pela graça dos deuses e anjos da guarda do futebol, foi contra o corte. E cirúrgico na sua avaliação: Pelé precisaria de mais dez dias de tratamento e estaria pronto para disputar a copa. Ou seja, não jogaria os dois primeiros jogos. Diante da URSS, ficaria à disposição de Feola.


Dito e feito. Pelé e Garrincha, que havia ficado de fora das duas primeiras partidas também, mas por outros motivos, entraram na seleção diante dos russos. Era o começo do inesquecível show do futebol brasileiro em solo sueco.


Viva o doutor Hosling!


Parabéns ao Rei Pelé!


P.S: Foto acima de José Dias Herrera, publicada no livro Primeiro tempo, o início da trajetória de Pelé com imagens e depoimentos inéditos



FICHA TÉCNICA


Estrela Solitária, um brasileiro chamado Garrincha

Editora Companhia das Letras (1995)

Ruy Castro

524 páginas