O Sul-americano de 1957 nas profecias de Nelson Rodrigues


O ano era 1957. Ano de Sul-americano. E o Brasil tinha a chance de retornar a Lima e apagar a imagem deixada lá na edição de quatro anos antes. A mais tumultuada participação nacional na competição, em grande parte devido às trapalhadas do técnico Aimoré Moreira com o time dentro de campo e, fora dele, em parceria com o chefe da delegação José Lins do Rego.


E Nelson Rodrigues estava otimista quanto às chances brasileiras. Até aí nenhuma novidade. Ele sempre via a seleção brasileira como a melhor de todas em todas as competições. Isto, no entanto, não o impedia de enxergar os pontos fracos, os erros cometidos. Muito longe disso. Via como poucos, como ninguém, situações que iam bem além das quatro linhas.


O motivo que justificava o otimismo rodriguiano para o Sul-americano de 57 era o comando da seleção brasileira, que estava nas mãos de Osvaldo Brandão. Com carta branca da CBD para montar a sua equipe e comissão, o ex-técnico do Corinthians era a pessoa, de acordo com Nelson, que reunia autoridade, respeito, e capacidade de unir o grupo. O que faltara em 53.


“(...) E se o Brasil voltar de lá campão, eu serei o menos espantado dos brasileiros”, escreveu na Manchete Esportiva, quatro dias antes da estreia da seleção diante do Chile. O time formou com Gilmar; Edson e Nilton Santos; Djalma Santos, Zózimo e Roberto; Joel, Didi, Evaristo, Zizinho e Pepe. E venceu sem maiores complicações: 4x2. Destaque para Didi, com dois gols.


Os resultados seguintes, no entanto, ligariam o sinal de alerta de Nelson (otimista, mas desconfiado). E não por terem sido ruins. Por terem, excessivamente positivos. O jogo seguinte ao dos chilenos foi diante dos equatorianos e veio a sonora goleada, de numerais que viriam a se tornarem cabalísticos para o futebol nacional: 7x1. Desta vez, destaques para Evaristo e Joel, autores de dois gols cada.


O terceiro confronto foi diante da Colômbia. E mais uma a vez o ataque brasileiro bombardeou o adversário impiedosamente. Só Evaristo marcou cinco gols. Didi mais dois. Zizinho e Pepe um, cada. Isso, placar de 9x0. Qualquer outro cronista estaria estampando algo como ‘Eu já sabia’. O título da coluna de Nelson foi: ‘A luta contra a máscara’.


“Aparentemente, o resultado é uma indicação de nossas esplêndidas possibilidades no certame. Mas eu confesso: quando vi aquela dissipação, aquela orgia de gols, fiquei apreensivo. Explico: de uma maneira geral a goleada não constitui um estímulo para o brasileiro”, adiantou na edição do dia 30 de março.

Baseado nas lembranças, ainda recentes e doloridas, da Copa de 1950, Nelson avisava a todos que os brasileiros tinham uma enorme dificuldade de lidar com o que o ele chamou de êxito fácil, responsável por alimentar a ilusão de ser imbatível, por gerar o sentimento da empáfia, por criar a máscara.


“Por exemplo: o Mundial de 50, que perdemos aqui. E por que perdemos? Justamente porque, na penúltima partida, derrotamos de banho, derrotamos de lavagem a Espanha. Se tivéssemos vencido duramente, por um escore apertado, a partida final viria a ser, inevitavelmente, uma apoteose. Teríamos batido a “Celeste” de seis, de sete, de oito.”


Nelson foi enfático. Brandão precisaria, mais do que tudo, lutar contra “uma euforia excessiva e fatal”: “O importante, o decisivo é impedir que alguém se mascare. Deve haver otimismo sim, mas sóbrio, controlado, viril”.


O adversário seguinte à goleada dos 9x0 em cima dos colombianos era, por acaso, o mesmo Uruguai de 50. O time celeste, no entanto, não vinha bem. Até pela própria Colômbia havia sido derrotado. Mas como Nelson tinha avisado, o Brasil fez uma péssima partida, jogou sem alma, diante dos combativos uruguaios, e foi derrotado por 3x2.


“(...) A única atitude possível, para todos nós, é a seguinte: observar um minuto de vergonha. Nada mais.”, sentenciou o cronista no dia 6 de abril, na coluna ‘A pobre derrota’.

A seleção ainda venceria o Peru antes de encarar os argentinos, jogo que poderia valer o título da competição. Mas, novamente, o time de Brandão foi apático. “Fomos incapazes de um esgar de desespero”. A derrota por 3x0 (“perdemos de três, e poderia ter sido de mais”) deu o a taça do Sul-americano de 1957 à Argentina, com uma rodada de antecipação.


Foto: CBF



FICHA TÉCNICA


O berro impresso das manchetes

Nelson Rodrigues

Editora Agir (2007)

540 páginas