O primeiro meio campista fora de série do futebol brasileiro atendia por Fausto



Tudo começou com Fausto. A imensa galeria de meio campistas excepcionais que o futebol brasileiro produziu, incluindo aí o melhor jogador de todos os tempos, e continua a produzir (em bem menor escala!), teve início com o centromédio que começou no Bangu em 1926. No Vasco, foi ídolo e algumas vezes campeão. Na seleção brasileira, mesmo na cambaleante e improvisada equipe que representou o país na primeira copa do mundo, em 1930, encantou os uruguaios e passou a ser conhecido como a Maravilha Negra. No Barcelona, foi o primeiro brasileiro a vestir a camisa azulgrana. No Nacional, do Uruguai, e no Flamengo, também levantou taça.


Segundo o escritor Antônio Falcão, em Os artistas do futebol brasileiro¹, ‘Fausto legou ao futebol brasileiro a matada no peito, o passe magistral, o exemplo de rebeldia... e um estilo de cabeça erguida – de jogar e de viver’. A excepcional capacidade com que dominava a bola, fosse no peito ou na coxa, o que não era comum na época, a precisão no toque, a amplitude da sua visão de jogo, a eficiência com que marcava e atacava, mexendo-se por toda as partes do campo, o faziam único na posição de center-half no Brasil. Quiçá, no mundo.


De acordo com João Máximo, em Gigantes do futebol brasileiro², numa excursão do Vasco à Europa, em 1931, um jornalista do El Diluvio, de Madri, escreveu: “Fausto trabalha como um escravo”, fazendo referência às múltiplas funções desempenhadas, e inevitavelmente a sua cor. “É possível que todos os certer-halves brasileiros também trabalhem como escravos. Será por isso que todos eles são negros?”. O preconceito racial, um dos motivos que abreviou sua passagem por Barcelona, estava até nos pretensos elogios da imprensa europeia.


“Fausto, o centromédio de cor, a Maravilha Negra, como o chamam no Brasil, fez maravilhas em campo. Ele joga de modo a justificar sua fama. Com tanta classe, até se pode não ser branco”, foi publicado em crônica de Os Sports, de Lisboa. A discriminação causava revolta em Fausto. Se fora do país, era a questão racial, no Brasil, o problema ia além da cor, escorria por aspectos sociais e profissionais.


Ou melhor, não profissionais. O auge da carreira de Fausto foi no período de transição entre, o dito na época, amadorismo para o profissionalismo, e trabalhar como um escravo, como descreveu o jornalista madrileno, e receber apenas premiações, a depender do humor do dirigente, era motivo de revolta. De muita revolta, diversas vezes, expressas dentro de campo através de socos e pontapés em adversários e juiz.


Mario Filho, quem melhor tratou sobre o assunto no país, em seu clássico O negro no futebol brasileiro³, classificava Fausto como um revoltado. “Se não seria o maior center-half brasileiro de todos os tempos”. A dificuldade que tinha de não controlar o seu ímpeto foi um dos grandes adversários de Fausto. Inferior apenas à tuberculose que o acompanhou ao longo da carreira, o impossibilitando de jogar várias partidas seguidas e abreviando a sua história no futebol (pendurou as chuteiras aos 31 anos) e na vida (aos 34, foi enterrado).


Nos três livros citados acima, com suas fichas técnicas abaixo, é possível conhecer bem mais deste cracaço, do futebol nacional. Vale e muito a pena. São muitas histórias sensacionais. Uma das melhores é contada por João Máximo. Aconteceu pouco antes da estreia da seleção brasileira na Copa de 1930. Sentindo que os seus companheiros de equipes só falavam em derrota, em fazer feio fora de casa, reclamando do frio, Fausto se virou para o massagista da seleção e disse: “Perder não é feio, Johnson. Feio é ter medo”.



FICHA TÉCNICA


Gigantes do futebol brasileiro

João Máximo e Marcos de Castro

Editora Civilização Brasileira (2011)

439 páginas


















O negro no futebol brasileiro

Mario Filho

Editora Mauad X (2010, 5ª edição)

344 páginas