O ponta esquerda que se tornou um dos maiores laterais do mundo



“É só o time perder para aparecer um bando de cabeças de bagre pra treinar”, soltou o técnico Zezé Moreira, chateado com a fase ruim do Botafogo naquele início da temporada 1948, momento propício para que diretores e conselheiros levassem seus apadrinhados para fazer teste, falando maravilhas do afilhado, prometendo ser a salvação da lavoura.

O técnico botafoguense tinha razão. De cada cem garotos levados, um ou dois eram chamados para voltar no dia seguinte. Mas naquela segunda-feira, o 1% que seria aproveitado viria a se tornar um dos maiores jogadores da história do Botafogo, do Brasil. Um dos melhores laterais do planeta do futebol.


Mas não foi como lateral que Nilton Santos chegou a General Severiano para fazer um teste, graças à influência do major Honório, da Aeronáutica, junto ao diretor social do clube, Bento Ribeiro. Mal a bola começou a rolar e Zezé Moreira chamou aquele garoto que chegara ao campo com a chuteira embrulhada num pedaço de papel velho para entrar.


Nem era a sua posição. Nilton não se incomodou, muito menos fez menção de avisar ao treinador que ele era ponta esquerda. Quis aproveitar a oportunidade, afinal, não havia tanto mistério em atuar de centromédio. Chegou a dar alguns dribles, algo que mais gostava de fazer, lançou, chutou ao gol. Na avaliação do próprio, não fez mais do que o essencial.


Mas agradou. Foi o único da leva de apadrinhados daquele dia a escutar: “Volte amanhã para treinar”. Ele voltou e fez o seu segundo treino. Ao término, da arquibancada, o presidente Carlito Rocha o chamou. O homem que viria a ser tornar uma figura lendária na história botafoguense havia gostado do novato, mas ele poderia melhorar ainda mais.


- E aí, rapaz? Você não é o recomendado de Bento Ribeiro?


- Sou sim, senhor.


- Qual a posição que você joga?


- De atacante.


- Você joga com a cabeça?


- O que é jogar com a cabeça, é pensar ou cabecear?


- É cabecear, disse ele. – Pula aí que eu quero ver.


Nilton Santos pulou.


- Pula de novo. Mais uma vez.


E lá foi mais uma vez o então ponteiro esquerdo.


- Não, você tem físico de defesa. E é lá que você vai jogar.


Na lateral direita, ele treinou no dia seguinte. Na saída, foi novamente chamado pelo presidente do clube.


- Esqueça o ataque, rapaz, na defesa você será campeão carioca, brasileiro, sul-americano e mundial. Nilton Santos achou um exagero, talvez o presidente só estivesse tentando incentiva-lo. Não fazia a menor ideia de que a profecia de Carlito Rocha se concretizaria anos depois.


O garoto cumpriu em parte o conselho do presidente. Ele nunca esqueceu, de fato, o ataque. Preferiu revolucionar a sua nova função. Foi o primeiro lateral a não apenas guardar posição, a se tornar uma importante peça ofensiva. Cumpriu com alto grau de excelência e categoria a missão de defender e atacar, algo inédito naqueles últimos anos da década de 1940.


FICHA TÉCNICA


Minha bola, minha vida – Biografia

Nilton Santos

Editora Gryphus (2014)

268 páginas