O frangaço de Raul e o sarcasmo de Brandão na Copa América 1975



Na Copa América de 1975, a seleção brasileira foi representada por um combinado mineiro, reforçado por um ou outro jogador de clubes do Rio e São Paulo. No comando, o mestre Oswaldo Brandão. Com a camisa 1, o goleiro Raul, então do Cruzeiro. Os dois são personagens de um daqueles típicos causos do futebol brasileiro que contaremos adiante.


O time de Brandão estreou no dia 30 de julho atropelando a Venezuela, em Caracas: 4x0. Gols de Romeu, Danival e Palhinha (2). Em seguida, no Mineirão, bateu a Argentina por 2x1, com Nelinho fazendo os gols brasileiros. Logo depois, também em Belo Horizonte, os venezuelanos levaram uma goleada pior ainda, 6x0. Roberto Batata (2), Campos, Danival, Nelinho e Palhinha marcaram. Em Rosário, o Brasil fechou a primeira fase com 100% de aproveitamento: 1x0 nos argentinos, gol de Danival.


Tudo às mil maravilhas. Pelo menos, até o início da semifinal, um mês e meio depois, quando a seleção encararia o Peru, novamente no Mineirão. O time do craque Cubillas surpreendeu e meteu 3x1. Dia infeliz de Raul, que até então havia buscado apenas uma bola em sua rede nos primeiros quatro jogos da competição. Um dos gols tomados foi um frangaço daqueles que ninguém esquece.


O goleiro do Cruzeiro embarcou com a delegação nacional para Lima sabendo que perderia a posição no jogo de volta. Na véspera da partida, após o jantar no hotel, recebeu um recado do massagista Nocaute Jack: “Seu Oswaldo, quer falar com você!”. Raul seguiu até o quarto do técnico crente que levaria uma baita bronca e seria comunicado sobre a reserva.


Ficou surpreso quando Brandão abriu a porta na maior simpatia. Foi logo pegando uma garrafa de uísque escocês e dois copos, enquanto puxava um assunto atrás do outro. Raul tentou se esquivar da bebida, mas foi logo contido. “Deixa disso, o chefe sou eu, não tem problema”.


O puríssimo malte, sem gelo, como gostava o treinador, foi sendo consumido à medida que o tempo passava e as conversas, das mais variadas naturezas, fluíam como se não houvesse amanhã. Mas havia. Então, Raul se deu conta da hora, disse que precisava voltar para o seu quarto, despediu-se e se dirigiu em direção à porta. Antes de girar a maçaneta, escutou o vozeirão de Brandão, em tom sarcástico.


“Meu goleiro, você bebeu a noite inteira. Assim não tem condição. Quem vai jogar é o Waldir Peres”.

A história é contada pelo próprio Raul no livro Histórias de um goleiro, em parceria com o jornalista Renato Nogueira, e relatada na biografia do treinador Oswaldo Brandão, Libertador corintiano, herói palmeirense, de Maurício Noriega.


Em tempo: Com Waldir no gol, o Brasil venceu o Peru, em Lima, por 2x0 e, como não havia critério de desempate, um sorteio foi feito e os donos da casa passaram para a decisão contra a Colômbia. Cubillas e cia. terminaram campeões da Copa América.

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