O Divino mestre que ensinou ao mundo que zagueiro também pode ser craque



No então campo do Palestra Itália, na tarde do domingo 2 de julho de 1931, vestia pela primeira vez a camisa da seleção brasileira um jovem de apenas 18 anos, magro e espichado. Era um mero desconhecido do torcedor paulista. Também do carioca. Estava começando a jogar pelo Bangu e ainda passava despercebido para muita gente. Não passou pelo técnico do time nacional Luiz Vinhaes, que buscava dar uma renovada no grupo e colheu boas informações sobre aquele zagueiro.


Ele também não chamou muito a atenção neste jogo inicial contra o time húngaro do Ferencvaros, no hoje Parque Antártica. Não por timidez ou limitação técnica. O amistoso foi um grande passeio da seleção e o placar de 6x1 dá uma dimensão do quanto a equipe da Hungria pouco exigiu dos nossos defensores. Mesmo assim, sua atuação agradou a Vinhaes, que o chamou para a partida seguinte, dois meses e quatro dias depois. E desta vez, não seria um amistoso, contra um adversário qualquer.


Tratava-se da Copa Rio Branco, contra o Uruguai, seleção que no ano anterior havia conquistado a primeira copa do mundo. Não à toa, um jogo cercado de expectativa, com o estádio das Laranjeiras abarrotado de torcedor. Domingos da Guia marcava o famoso atacante uruguaio Dorato, cujas arrancadas, ou rush, como se dizia na época, era a sua marca registrada. Motivo para deixar os beques em pânico.


Num determinado momento do jogo, Dorato recebeu a bola no meio do campo. Ligou os motores e arrancou para cima da defesa brasileira. Domingos manteve-se parado, como uma estátua, esperando o uruguaio na entrada da área. O atacante acelerou a poucos metros do defensor e passou como um raio, quase entrando no gol defendido pelo goleiro Velozo.


Por um segundo, ficou-se com aquela impressão ‘mas cadê a bola?’. Estava ela paradinha, nos pés do impávido zagueiro da seleção nacional. E lá se foi Domingos iniciando a saída de jogo do time com a categoria que Deus lhe deu, cabeça erguida. Ouviu-se naquele momento um grito das arquibancadas de madeira das Laranjeiras, afinal nada passa batido pelo torcedor de futebol: “Vou mandar dourar esse crioulo!”.


O Brasil venceu por 2x0, gols de Nilo. Mas foi Domingos que saiu de campo como o craque da partida. Um zagueiro ser considerado o destaque de um jogo era algo impensável naqueles idos de 1930, quando o bom defensor era aquele que descia o sarrafo sem dó nem piedade. O zagueiro do Bangu começou neste 6 de setembro, véspera do Dia da Independência, a mudar este conceito e estabelecer outro: todo jogador de defesa que realizasse uma jogada técnica e plasticamente bonita estaria fazendo uma ‘domingada’.


Em 1932, Domingos trocou o Bangu pelo Vasco, e continuou, mais do que nunca, vestindo a camisa titular da seleção brasileira. Em dezembro, o Brasil voltou a disputar a Copa Rio Branco, desta vez encarando os uruguaios em Montevidéu. Nova vitória, por 2x1, gols de Leônidas. E outras atuações impecáveis do zagueiro brasileiro. Os uruguaios, ainda de queixo caído pelo ano anterior, puderam se deleitar com o adversário em mais duas partidas amistosas no estádio Centenário.


Aproveitando a estada em Montevidéu e o enorme interesse dos rivais, a seleção brasileira esticou a permanência para faturar com dois jogos diante dos poderosos Peñarol e Nacional. Vitórias do time de Vinhaes por 1x0 e 2x1. A imprensa esportiva uruguaia, conhecida por criar apelidos, daria um segundo nome a Domingos da Guia, como havia feito com Friedenreich, chamando-o de El tigre após a conquista da Copa América de 1929: Divino mestre.


A adoração dos uruguaios por Domingos da Guia era tanta que não demorou para que ele recebesse uma excelente proposta para deixar o Vasco. Mas isso é tema de uma outra postagem.


Para quem busca mais informações sobre o maior zagueiro brasileiro de todos os tempos, indicamos a leitura de Domingos da Guia, o Divino mestre, de Aidan Hamilton (Gryphus, 2005) e ainda Gigantes do futebol brasileiro, João Máximo e Marcos de Castro (Civilização Brasileira, 2011).