O dia em que o jovem Rei peitou os generais de duas nações



Antes do embarque da seleção brasileira para a disputa da Copa do Mundo de 1978, o presidente da República, general Ernesto Geisel, recebeu os jogadores e a comissão técnica no Palácio Piratini, no Rio Grande do Sul. Cerimônia de praxe até em regimes democráticos, que assim como os ditatoriais exploram politicamente o futebol.


O que fugiu do padrão foi o convite do ministro Ney Braga ao jovem atacante do time nacional, levado a uma sala reservada para apresentá-lo pessoalmente a Geisel. “Então esse é o menino?”, cumprimentou o presidente, em tom intimidador.


“O general, com sua farda verde oliva, disse que eu jogava muito bem, mas que eu não deveria falar de política porque disso eles cuidavam. Tudo isso em um tom imperativo e firme: estava me dando um recado. Fiquei assustado e não respondi nada”, contou Reinaldo, atacante do Atlético Mineiro, de 21 anos, artilheiro do campeonato brasileiro do ano anterior com a impressionante marca de 28 gols em 18 jogos.

Apesar de ser o principal goleador nacional, um talento raríssimo do futebol brasileiro, Reinaldo só pôs os pés no Palácio Piratini naquele dia e seguiu para a Argentina após muita pressão popular. Aquele camisa 9 que comemorava os gols com o braço erguido, punho cerrado, imitando gesto dos panteras negras norte-americanos, que defendia a redemocratização do país, a constituinte e a liberdade de expressão era uma pedra grande e pontiaguda na botina da confederação brasileira.


A CBD, comandada pelo Almirante Heleno Nunes, foi obrigada a engolir a convocação do centroavante do Galo. A sua exclusão do grupo de jogadores poderia gerar ainda mais protesto, principalmente no caso de um eventual (e previsto) fracasso em solo argentino. A saída encontrada para a sinuca de bico foi levar o genial atacante e, às vezes, na base da intimidação, tentar controlar seu ímpeto.


Menos ostensivo que o presidente Geisel, o diretor de futebol da CBD, o coronel André Richer, também deu conselhos e pediu que Reinaldo fosse mais cauteloso na comemoração: “Enfatizou para que eu não comemorasse com o punho cerrado na Copa do Mundo. Sugeriu: ‘comemore de braços abertos que é mais bonito’”, explico o camisa 9.


A preocupação era dupla. A copa seria disputada em um país que há dois anos vivia sob um sangrento regime de ditadura militar, comandada pelo general Jorge Rafael Videla, responsável pela morte de mais de 30 mil pessoas, e que estava declaradamente decidida a capitalizar politicamente com aquele mundial. Autoridades argentinas também fizeram chegar aos ouvidos do atacante brasileiro algumas ‘sugestões’ para comemorar de outras formas.


No jogo de estreia, contra a Suécia, o time brasileiro começou perdendo. Até que Reinaldo marcou o gol de empate. Por um segundo, ele titubeou, mas não se intimidou. Braço direito estendido, punho cerrado. Mesmo o time todo não fazendo uma boa partida, o Brasil teria chegado à vitória não fosse garfado no, literalmente, último segundo pelo árbitro Clive Thomas. O galês apitou o final do jogo com a bola no ar, bola que seria empurrada para as redes por Zico.


Nem mesmo um erro antológico na história das copas serviu para amenizar as críticas sobre a atuação do time de Cláudio Coutinho, que assim como boa parte da sua comissão técnica, também militar. Na verdade, sob o seu comando, a seleção nunca apresentou um futebol minimamente convincente.


Era preciso alguns bodes expiatórios para não sobrar para o treinador. Sobrou para o zagueiro Edinho e os dois autores dos gols da partida: o anulado, Zico, e o confirmado, Reinaldo. Impossível dizer se foi pela comemoração, certeza apenas que o seu substituto, Roberto Dinamite, era um pleito antigo do presidente da CBD Heleno Nunes, torcedor vascaíno. A copa acabava para o artilheiro do Brasil, na estreia.



FICHA TÉCNICA


Punho cerrado, a história do Rei

Philipe Van R. Lima

Editora Livramento (2017)

256 páginas