O dia em que Domingos da Guia virou atacante e goleador



O jogo aconteceu no dia 18 de outubro de 1931, em General Severiano. O Bangu precisava vencer a todo o custo o Botafogo para seguir com chances no estadual. Mas havia um problema. O time tinha sérios problemas no ataque, quase não marcava gols. Ao contrário, do meio para trás, era sólido e eficiente. Em grande parte graças à dupla de zaga Sá Pinto e, principalmente, Domingos da Guia.


Domingos da Guia ainda não era exatamente o Domingos da Guia que viria a ser considerado como um dos maiores zagueiros da história do futebol mundial. Estava no início de carreira, com apenas 19 anos de idade. Mesmo assim, acabara de estrear pela seleção brasileira com grande destaque, parando o cracaço Pablo Dorato, uma das estrelas da Celeste, campeã do mundo um ano antes.


Ele não apenas parou Dorato, desarmando-o com tranquilidade na grande maioria de suas rápidas investidas contra o arco brasileiro. Numa dessas tentativas pelo lado esquerdo do ataque, Domingos se antecipou ao atacante e ficou com a bola, próximo à linha de fundo. Dorato a sua frente. O zagueiro fez que ia para dentro da área, mas puxou a bola para o lado contrário. O uruguaio passou direto e o brasileiro saiu tranquilamente para o jogo.


“De Domingos, eu tenho autoridade para falar, pois levei dele um ‘dribbling’ que me deixou chumbado, sem saber o que fazer. Nunca esperei tal jogada. Foi de consumado mestre. Fiquei num primeiro momento desconcertado. Domingos é um zagueiro formidável. Um dos maiores que tenho visto”, confirmou Dorato ao jornal O Globo, dias depois do confronto.

Aos 19 anos, Domingos já era tudo isso, mas viria a ser bem mais ao longo da carreira. Era só o começo da trajetória de quem ficaria marcado na galeria dos maiores futebolistas do planeta com o Divino Mestre. O drible desconcertante do zagueiro ficou tatuado na história do futebol brasileiro como ‘Domingada’.


Pois bem, voltando ao jogo do Bangu contra o Botafogo, cerca de um mês depois do duelo contra o Uruguai, a solução encontrada para tentar resolver o problema ofensivo da equipe suburbana foi deslocar o grande zagueiro Domingos para o ataque, afinal tratava-se de um jogador extremamente técnico, de excelente passe e capaz de transmitir tranquilidade para a sua linha de frente, quase sempre intranquila na hora da finalização.


Ao lado dos irmãos Landislau e Medio, Domingos pisou no Estádio de General Severiano com a inédita missão de fazer o ataque bangusense funcionar. E apesar da estranheza causada com a mudança radical de posição, Domingos resolveu o problema ofensivo do time. Seu adversário, amigo e companheiro de seleção, Nilo, foi só elogios em entrevista ao O Globo:


“Domingos foi um bom comandante. Eu exageraria se dissesse que o centroavante igualou o grande zagueiro. Nem se poderia dar esse fato no primeiro ‘macht’ em que ele mudou de posição. Mas foi um bom condutor (...) E o ataque do Bangu tornou-se verdadeiramente perigoso”.

Domingos da Guia marcou dois gols e o seu irmão Landislau fez o outro. O problema é que a defesa havia ficado desfalcada do seu principal nome. Carvalho Leite, Nilo e Celso (2) não tinham nada a ver com isso e marcaram os gols do Botafogo. 4x3 para os donos da casa. Na partida seguinte, Domingos voltou a jogar na zaga do Bangu.



FICHA TÉCNICA

Domingos da Guia, O Divino Mestre

Aidan Hamilton

Editora Gryphus (2005)

334 páginas