O debute como técnico de João Saldanha e o mítico 6x2 na finalíssima



Alguém podia discordar, chama-lo de incoerente, jamais. Na primeira vez em que assumiu a função de técnico, João Saldanha já pôs dentro de campo tudo o que defendia do lado de fora. Teoria e prática faziam tabelinha, entendimento perfeito. Para ele, o futebol era, ou devia ser, algo simples. E o João sem medo sabia bem diferenciar a simplicidade do simplório.


Antes de se tornar técnico do Botafogo, em 1957, Saldanha falava aos quatro ventos que quem decide, na verdade, lá dentro do campo, são os jogadores, a qualidade deles. “Técnico não ganha jogo, mas pode perder”, sintetizou, numa das suas inúmeras frases que ficaram para a posteridade.


Para ele, o caminho das vitórias poderia ser resumido em ter um esquema de jogo básico, e sólido, de fácil compreensão por parte dos atletas. O resto viria de acordo com a capacidade de cada um com a bola nos pés.


Mas Saldanha também lutava para que os seus jogadores entrassem em campo de bem com a vida, sem tantas pressões. Por isso, era um opositor radical do período de três dias de concentração antes de um jogo. Gostava de chamar cada um no canto para aquela conversa de pé de ouvido. Se fosse hoje, o chamariam de motivador.


Após o terceiro lugar no Carioca de 1956, Zezé Moreira deixou o comando do alvinegro. Em seu lugar entraria Geninho, um ex-jogador e ídolo do clube no título de 1948. Após um período de experiência, o estreante na carreira de técnico se viu no direito de fazer exigências em cima de exigências na hora de assinar o contrato pra valer. Acabou sendo deixado de lado.


Como o Botafogo tinha uma excursão agendada para o Nordeste e Venezuela, era preciso que alguém assumisse a equipe de imediato, enquanto a diretoria buscaria um outro nome para comandar a equipe no Carioca, logo após a volta da viagem. Este alguém poderia ser o assessor, ou consultor, do diretor de futebol Renato Estellita, João Saldanha.


Que tal você pegar este time, João? Por pouco tempo. Até que a gente contrate alguém para o lugar de Geninho, propôs o diretor. Proposta aceita, de imediato. O que ninguém sabia era que o ‘pouco tempo’ duraria quase três anos.


Saldanha estreou num empate com o Palmeiras, em 1º de junho, antes do embarque do time. Efetivado na volta da viagem, o novo técnico teve uma novidade em relação à temporada anterior. O ponta esquerda Quarentinha havia sido contrato. De resto, elenco contava com os craques Nilton Santos, Didi e Garrincha, e outros nem tanto.


Mas o técnico debutante soube tirar de cada um, o seu melhor. E levou o time à decisão do campeonato. Seria contra o Fluminense. E foi uma final para entrar para história do Botafogo, que deu um baile sobre os tricolores e saiu campeão com o placar de 6x2. Paulo Valentim fez cinco e Garrincha, umas das suas melhores apresentações.


E como o alvinegro chegou a um resultado tão expressivo? Simples. Abriu Garrincha, e só Garrincha, pela direita, incumbiu Didi, principalmente, e os seus homens de armação a priorizar os lançamentos para o camisa 7 e abdicou das qualidades ofensivas do seu ponta esquerda, Quarentinha, para lhe dar uma missão que considerava imprescindível.


“Olha, Quarenta, aonde o Telê for você vai atrás. Gruda nele, não deixa ele tocar na bola. Você não precisa atacar, nem chutar a gol, nada. Só marca o homem”. Saldanha acreditava que o falso ponta do Flu não era apenas um falso ponta. Era o cérebro, coração e alma do adversário. Era o Didi deles, como o próprio técnico classificou. Neutraliza-lo era o caminho para que o seu time chegasse à vitória. E foi, simples assim.



FICHA TÉCNICA


João Saldanha

João Máximo

Editora Relume Dumará (1996)

140 páginas