O começo de Rivellino e a origem do genial drible 'Elástico'



Os anos entre 1954 e 1977 foram tempos de vacas magras, terra arrasada e seca pelas bandas do Parque São Jorge. Além de não ganhar títulos, o Corinthians realizou diversas campanhas medíocres que lhe renderam apelidos e muita gozação dos adversários, como o do ‘Faz-me rir’, talvez a pior das temporadas do período: a 1961.


Em meio a tanta aridez, no entanto, brotou um dos maiores meias da história do futebol brasileiro, Roberto Rivellino, herdeiro da camisa 10 da seleção brasileira na era pós-Pelé, que ao longo da sua carreira colocou suas digitais em duas das suas maiores qualidades: o chute e o drible eram únicos.


O primeiro, ganhou o apelido, não de graça, de ‘Patada Atômica’, tão potente quanto preciso, capaz de atravessar barreiras aparentemente intransponíveis, explodindo na rede adversária, como a da seleção da Tchecoslováquia no primeiro gol do Brasil na Copa de 70. O drible, o ‘Elástico’, não foi inventado por ele, mas aperfeiçoado, para azar dos seus marcadores, como o vascaíno Alcir, num dos gols antológicos do Maracanã.


Mas comecemos pelo começo. Dois anos após o ‘Faz-me rir’ de 1961, Roberto Rivelino começou a jogar no juvenil do Corinthians. A habilidade que carregava na sua canhotinha logo fez com que chamasse a atenção de todos no clube. Em 1964, já integrava o time de aspirantes, uma categoria que reunia jogadores promissores da base e profissionais não utilizados na equipe principal.


Naquela época, o campeonato de aspirantes era bastante valorizado e levado a sério pelos clubes, imprensa e torcida (bons tempos...). No caso da competição de 1964, adotada pelo torcedor do Timão como o principal torneio do ano. Cansado das pífias apresentações e recorrentes vexames do time de cima, o corintiano passou a acompanhar a campanha do seu time de aspirante.


O título do Paulistão daquele ano nem de longe matava a sede de conquistas dos seus torcedores, mas o gole mínimo no néctar da vitória fez muitos voltarem a sonhar no Parque São Jorge. Tudo por causa do garoto Rivellino e sua habilidosa e explosiva perna esquerda, que ganharia um aditivo para jamais ser esquecida.


O ‘Elástico’ surgiu deste time de aspirantes do Corinthians de 1964. Dele fazia parte o ponta direita Sérgio Echigo, mais conhecido como Japonês, o inventor do sensacional drible, crédito dado pelo próprio Riva, cujo queixo foi ao chão ao ver o companheiro deixar um marcador sem pai nem mãe durante um treinamento.


Terminado o coletivo, foi direto falar com o amigo, pedindo que o ensinasse. Segundo Japonês, a jogada era uma mistura da forma como Pelé e Garrincha driblavam, um dominando a bola do com a parte de dentro do pé, o outro com a de fora, gingando para um lado e arrancando em alta velocidade com a bola, como se grudada estivesse na chuteira.


O aprendiz passou a treinar com afinco a jogada, devidamente adaptada para a sua canhota. A repetição associada à qualificação técnica rende excelentes resultados em tudo na vida. Rivellino foi aperfeiçoando o ‘Elástico’ ao longo da carreira, que em 1965 era iniciada no time profissional do Corinthians, inicialmente com a camisa 8 e sob o comando do Velho Mestre Oswaldo Brandão.


Na mesma temporada em que estreava na equipe principal do Timão, Rivellino recebia a sua primeira convocação para a seleção brasileira, coisa daqueles que compõem o seletíssimo grupo de supercraques. Sua estreia aconteceu na vitória do Brasil contra a Hungria por 5x3 no Pacaembu, entrando na vaga de Nair, da Portuguesa, no segundo tempo do amistoso.


Somente a partir de 1966, ele passou a atuar na sua verdadeira posição, a meia esquerda, agora usando a camisa com o 10 nas costas. Apenas com a amarelinha, ou azulzinha, na seleção brasileira, de Pelé, Riva voltaria a usar a 8 ou a 11, como foi no tricampeonato mundial do México.


FICHA TÉCNICA

Rivellino

Maurício Noriega

Editora Contexto (2015)

208 páginas


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