Nem o preconceito parou a arrancada da carreira de Dario


O preconceito acompanhou Dario ao longo da sua carreira. No Atlético Mineiro, precisou matar dois a três leões por dia para provar que mesmo desengonçado, às vezes matando a bola na canela, sem o refino dos grandes craques da época, poderia ser decisivo. E provou, fazendo muitos gols como poucos faziam.


Gols que deram títulos inesquecíveis ao Galo, como o estadual de 1970, pondo fim à longa supremacia cruzeirense, e o do primeiro Campeonato Brasileiro da história, em 1971. Além de ser duas vezes artilheiro do Brasileirão com a camisa do Atlético.


Dadá virou ídolo do alvinegro mineiro e do povão em geral, que se deliciava com o seu jeitão folclórico, de frases engraçadas, dando nomes a gols e apelidos a ele mesmo. Era sinônimo de alegria, fosse nas entrevistas ou botando a bola para dentro das redes, não importando de que forma fosse.


Mas se ganhava a admiração do torcedor Brasil afora, o mesmo não se podia dizer em relação à imprensa e aos próprios jogadores da época. Muitos torciam o nariz para aquele jogador grosso que 'só' sabia fazer gols. Foi desta forma que Dario chegou ao Flamengo em 1973. Com status de ídolo entre os geraldinos e salário de craque, o maior do elenco que iniciava o Carioca.


Causou uma ciumeira dos diabos. Na sua biografia, o atacante conta que sofreu boicote dos companheiros, que ninguém passava a bola para ele. Mesmo assim, ajudou o rubro-negro a conquistar a Taça Guanabara e foi o artilheiro do time com cinco gols, um mais que o outro atacante e ídolo da torcida com cadeira cativa, o argentino Doval.


Muito se falava no Rio que os dois não podiam jogar juntos. Após o título da Guanabara, a discussão virou letra de música de Marcos Valle: “Parece que finalmente, resolvemos o dilema, Dario e Doval jogando juntos sem problemas...”. A dupla continuou a jogar junta no segundo turno, mas as coisas não iam bem pro lado de Dario, nem para o Flamengo, que viu o Fluminense e o Vasco crescerem na competição.


Na preleção, antes do jogo contra o Bangu, no qual os rubro-negros precisariam vencer de goleada para continuar com chances de conquistar o turno, Dadá interrompeu o técnico Zagallo. Já não aguentava mais ser ignorado pelos companheiros, que nitidamente privilegiavam o amigo Doval, há quatro anos no clube.


“Falei para o pessoal que era só dar a bola pra mim e vir para o abraço. Só não estava marcando gols porque ninguém me lançava. E se alguém duvidasse, era só passar a bola que eu marcaria”.

O desabafo teve um resultado imediato e a bola passou a chegar para ele. O Flamengo venceu por 8x0, com quatro gols de Dario (Doval fez 3), mas não conseguiu impedir que o Fluminense vencesse o segundo turno e o campeonato. Mas não por falta de gols de Dadá. Na final, diante de 74 mil torcedores, Manfrini e Toninho ampliaram a vantagem dos tricolores, que jogavam pelo empate, ainda no primeiro tempo.


Dario fez a torcida do Flamengo voltar a sonhar com o título deixando tudo igual no placar ao marcar duas vezes. Ficou no sonho, no entanto. O Fluminense tinha um melhor time, e mais unido. Manfrini e Dionísio sacramentaram a vitória e o troféu foi para as Laranjeiras. Apesar de todos os problemas enfrentados no elenco, Dario ainda terminou o campeonato carioca como o artilheiro: 15 gols. Dois a mais que Manfrini.


Foto: Jornal O Globo



FICHA TÉCNICA


Dadá Maravilha

Editora Del Rey (1999)

Flávio Lúcio Machado

224 páginas