Libertadores1981: A vingança é um prato que se come com o título



Nelson Rodrigues dizia que ‘cada brasileiro, vivo ou morto já foi Flamengo por um instante, por um dia’. Talvez ele tenha razão. E talvez, para muitos, o dia tenha sido 23 de novembro de 1981. Dia da final da Libertadores, no Estádio Nacional de Montevidéu. A cotovelada vingadora do jovem atacante Anselmo no carniceiro defensor chileno Mario Soto talvez tenha sido o instante, por mais ínfimo.


Naquele ano, o Flamengo chegou à decisão da Taça Libertadores da América contra o Cobreloa, jovem equipe chilena da cidade de Calama, que graças à riqueza proveniente do cobre que brotava em abundância das minas locais teve uma ascensão fora do comum. Em 1977, o clube foi fundado. Nos dois anos seguintes, terminou como vice-campeão nacional. Em 1980, campeão. E 1981, estava na decisão continental. No time, vários jogadores da seleção do Chile que disputariam a Copa da Espanha sete meses depois.


Além de uma certa qualidade técnica, o Cobreloa levava ao pé da letra aquela história de que a Libertadores é uma guerra. Os jogos em território chileno, que vivia pesados anos da ditadura do general Augusto Pinochet, eram de fato uma guerra. Os jogadores uruguaios de Nacional e Peñarol, desclassificados pelo time do cobre na reta final da competição, que o digam.


Mas o primeiro jogo da final foi no Maracanã. E o Flamengo deitou e rolou, com direito a dois gols de Zico e a vantagem de precisar apenas de um empate na partida de volta. Mesmo em território rubro-negro, o zagueiro chileno Mario Soto desceu o sarrafo, na pura deslealdade, dando uma prévia do que os brasileiros enfrentariam no Chile. Ninguém imaginava, porém, que pudesse ser como foi.


“Ele jogava com uma pedra na mão, nunca vi isso”, conta o goleiro do Flamengo no seu livro biográfico Raul Plassmann, histórias de um goleiro.


Soto não foi o único. Todo o clima em Santiago, era intimidador. Mas o zagueiro comandou a série de agressões. Júnior foi pisado no chão, Adílio teve o supercílio aberto e mal se via o olho de Lico pelo inchaço de um soco do chileno. Na base da porrada, o Cobreloa se impôs e fez 1x0 no amedrontado time brasileiro.


“Dissemos lá nos vestiários: ‘hoje nós pipocamos’”, conta Raul, lembrando o complemento do técnico Paulo César Carpegiani: “É, botaram vocês pra correr”.

O resultado em Santiago forçava a realização de uma terceira partida para decidir o título, agora em campo neutro: o Estádio Nacional de Montevidéu. “Vamos pegar o cara”. Foi o sentimento de vingança que predominou nos três dias que separaram a segunda da terceira partida decisiva. Carpegiani era contra violência, mesmo em Soto, e tentou brecar a revolta dos comandados.


Ninguém ali poderia prejudicar o time por causa de algo menor. O título era o mais importante para todos naquele momento. Segundo Raul conta no livro, ficou decidido então que o time buscaria fazer o resultado, garantir o título inédito. Com o placar assegurado, alguém daria um troco com juros e correções monetárias em Mario Soto. Esse alguém seria Nunes.


A bola rolou na capital uruguaia e o roteiro traçado nos bastidores do time do Flamengo foi sendo posto em prática. Os brasileiros jogaram o futebol que sabiam, sem se intimidar com a pancadaria. Zico abriu o placar. E fechou, com uma magistral cobrança de falta. Um dos seus mais belos gols de falta. O jogo se aproximava do final e a ansiedade pelo revide no chileno aumentava. O encarregado pela vingança, no entanto, hesitava quando os companheiros mandavam: “Dá-lhe”.


“Ele não era o mais indicado. Nunes fazia muito auê, mas não era de dar pontapé em ninguém”, lembra o goleiro. No banco, havia um jovem atacante, cabeludo como Nunes, que assistira a partida de Santiago pela televisão e fora convocado para viajar a Montevidéu porque Lico, vítima de Soto, estava vetado.


Faltando poucos minutos para o jogo acabar, o sanguinário defensor chileno pegou covardemente Tita. Carpegiani chamou Anselmo e deu a mais rápida orientação da sua carreira de técnico. “Entra lá e dá uma porrada no cara!”. Tão rápido quanto, cerca de 60 segundos, o atacante de 21 anos resolveu a questão, levando a nocaute, sem direito a contagem, o zagueiro Mario Soto.


“Ele deu um cotovelaço de esquerda. Afundamento de malar. Nosso Superanselmo pegou o cara”, conta Raul, saboreando nas lembranças a vingança: “Um marginal em campo daqueles merece levar porrada”.

Depois do nocaute, a pancadaria foi total e praticamente todo mundo teve pelo menos um tapa dado e outro revidado para contar.


Nota do editor: Tinha 11 anos de idade na época e havia decidido que, na final, torceria apenas por Nunes, ídolo de infância, desde as minhas primeiras idas ao Arruda para comemorar os seus muitos gols com camisa do Santa Cruz. As arbitragens de José de Assis Aragão e José Roberto Write em recentes confrontos com Atlético Mineiro haviam criado uma certa antipatia pelo Flamengo, embora não deixasse de enxergar que se tratava de um timaço. Mas naquele terceiro jogo da decisão da Libertadores de 1981, reconheço, tive o meu dia rodriguiano como flamenguista.



FICHA TÉCNICA


Raul Plasmann, histórias de um goleiro

Editora DBA (2001)

Renato Nogueira

112 páginas