João Saldanha e a formação do Botafogo mais glorioso da história



O Botafogo havia feito um enorme papelão no Carioca de 1955, terminando a competição na sétima colocação, atrás do Bonsucesso. O diretor do alvinegro, Renato Estellita, precisava de alguém com ideias novas, alguém que pudesse revolucionar o futebol do clube, alguém como João Saldanha. Em 1956, o militante comunista já não precisava mais viver na clandestinidade.


A vitória de Juscelino Kubitschek nas eleições presidenciais do ano anterior trouxeram ao país uma maior estabilidade econômica e política, mais liberdade. A Saldanha, a tranquilidade de poder circular livremente pelas ruas e o tempo para se dedicar ao que já a sua maior paixão. Aceitou, sem pestanejar, o convite e arregaçou as mangas para transformar de vez a história do Botafogo.


Dois anos antes, ele estivera na Suíça para assistir à copa. Apenas como torcedor. Ou melhor, estudioso do futebol. Saldanha viu de perto uma das melhores seleções da história: a Hungria. Que em 1952 havia conquistado o ouro olímpico e entrava no mundial com uma invencibilidade de quatro anos. A geração de Federec Puskas, Sandor Kocsis e cia encheu os olhos de todos também durante a copa.


Da arquibancada, o ilustre brasileiro ficou embevecido com os craques húngaros, a forma como eles se movimentavam em campo, o volume de jogo da equipe. Saldanha voltou ao país com algumas convicções que nortearam toda sua vida no futebol. A de que técnico não ganha jogo, mas pode perdê-lo, foi uma delas.


A função primordial de um treinador, segundo ele, era a de garantir ao time um padrão de jogo, uma organização tática que facilite, e não amordace, os craques. Em suma, que simplificasse e não atrapalhasse a vida de quem está dentro de campo, quem realmente resolva a parada.


Essa também era a crítica que ele tinha ao esquema ortodoxo de técnico brasileiro Zezé Moreira, responsável por tolher um time com jogadores da qualidade de Didi, Julinho, Bauer, Djalma e Nilton Santos. O Brasil levou um vareio de bola da própria Hungria e só trouxe desta copa cenas lamentáveis de violência, de quem não sabia ganhar, muito menos perder.


De volta ao Botafogo e ao ano de 1956, Saldanha defendia ferrenhamente que o primeiro passo para mudar radicalmente o clube era investir na qualidade técnica da sua equipe. Quem não pode ser o maior, tem que ser o melhor, costumava repetir. Com Estellita, e o endosso do presidente Paulo Azeredo, foi buscar Bauer, no São Paulo, Paulo Valentim, no Atlético Mineiro, Alarcon, na Argentina, e Cañete, no Paraguai.


Mas ainda faltava ‘o’ grande craque para comandar o time dentro de campo. Saldanha descobriu que este jogador estava muito insatisfeito no seu clube. Recém-separado da primeira esposa e vivendo com a vedete Guiomar, umas das mulheres mais deslumbrantes do Rio de Janeiro, Didi se revoltava porque o clube tricolor não aceitava fazer o que chamamos hoje de ‘pagar por fora’.


Uma ordem judicial obrigava que 30% do que recebia fosse depositado na conta da ex-mulher. Didi queria que o clube informasse à justiça um salário inferior ao real para que o restante ficasse livre de qualquer desconto. O Fluminense não topou e o Botafogo aproveitou a abocanhar o principal jogador do país na época.


Além de ‘pagar por fora’, os alvinegros toparam desembolsar a quantia recorde de 1 milhão e 850 mil cruzeiros pelo passe de Didi. Apesar de receber um valor estratosférico para os padrões da época, o Fluminense se sentiu lesado e tentou dificultar a transferência, exigindo que o pagamento fosse em espécie e na sede do clube.


Matreiro, Saldanha aprontou para cima dos tricolores. Foi ao banco e pediu que aquela dinheirama viesse toda em notas de 100. Foram 18.500 notas de 100 contadas uma a uma pela contabilidade do clube na sede de Álvaro Chaves. Didi foi para o Botafogo, que iniciava o seu período mais mágico e glorioso.


João Saldanha tem mais de uma biografia, mas a que entra como a nossa ‘Dica da semana’ é a escrita pelo jornalista João Máximo, lançada em 1996. Assim como a história acima, muitas outras são maravilhosamente contadas por Máximo, que descreve a vida de um personagem único, e não apenas no futebol.


Mesmo filtradas pelo rigoroso senso de apuração do escritor e jornalista, separando o que era alegorias, ou lendas, dos fatos, o escritor percorre a trajetória cinematográfica de Saldanha, que poucos roteiristas seriam capazes de imaginar. A vida do personagem, marcada por sua militância pelo partido comunista, cruza com a de diversos outros que marcaram a história política do Brasil, como Getúlio Vargas, Luís Carlos Prestes, Carlos Lacerda, Leonel Brizola, e por aí vai.


O livro vai muito mais além da imensa herança que João Saldanha deixou para o futebol brasileiro. Serve também como aula de história.



FICHA TÉCNICA


João Saldanha

João Máximo

Editora Relume Dumará (1996)

140 páginas