Há 100 anos, a seleção brasileira conquistou a sua primeira Copa América



“Neco recebeu de Amílca, passou por Zibecchi, driblou Vanzino, deslocou-se para a direita, perseguido por Foglino, foi até a linha de fundo; perdeu o ângulo e centrou assim mesmo, pelo alto. Heitor e Varela saltaram, o brasileiro um pouco mais, cabeceou, forçando Saporiti a rebater de soco, e a bola acabou saindo da área uruguaia. No entanto, nunca se soube de onde ou como surgido, ali estava Fried, no lugar certo, a curta distância da meia-lua, esperando apenas que a bola descesse para então colhê-la no ar, de voleio, e mandá-la bem no canto, fora do alcance de Saporiti. Naquele instante, ninguém procurou saber como Fried fora tão preciso, fazendo a bola passar por tanta gente, uruguaios e brasileiros, e chegar ao gol. É que todos, jogadores e torcedores, abriam os braços para um só abraço, as bocas para um só grito, o coração para uma só alegria. O Brasil, se bem que ainda faltassem 27 minutos para o fim do jogo, 27 minutos de vagarosa tortura, era campeão sul-americano”.


No dia 29 de maio, o Brasil conquistou o seu primeiro Campeonato Sul-americano. O escritor e jornalista João Máximo, no excelente livro Gigantes do futebol brasileiro (*), nos faz voltar 100 anos no tempo e nos leva ao Estádio das Laranjeiras ao narrar o gol de Friedenreich. Gol que saiu no começo da segunda prorrogação da partida extra contra o Uruguai, após o persistente 0x0 se manter irredutível ao longo dos 90 minutos do tempo regulamentar e os primeiros 30 da prorrogação. Como o regulamento não previa cobranças de pênaltis, mais 30 minutos de bola rolando para se conhecer o campeão foi preciso.


O título começou a ser escrito com os 6x0 sobre os chilenos, sendo três de Fried. Depois foi vez da Argentina. Um teste para saber se aquele time nacional, representado por jogadores dos clubes do Rio e São Paulo, estaria pronto para chegar à conquista do Campeonato Sul-americano, que deveria ter acontecido no ano anterior, mas a epidemia da ‘gripe espanhola’ exigiu seu adiamento para 1919.


Depois de um primeiro tempo sem ninguém balançar as redes, Heitor abriu o placar para os brasileiros, mas Izaguirre voltou a deixar a partida empatada. Amílca e Milton deram a segunda vitória à seleção, aumentando a confiança do torcedor carioca para o terceiro jogo, que poderia valer o título.



O adversário era o Uruguai. Quem vencesse ficava com a taça. Mas ninguém venceu. Em grande parte graças a Neco, que marcou os dois gols do Brasil no empate de 2x2. Uma partida extra, esta sim com quantas prorrogações fossem necessárias em caso de novo empate, foi marcada para o dia 29 de maio.


Os quatro dias que separaram o apito final e o apito inicial dos dois confrontos com a seleção celeste podem ser considerados como o primeiro momento daquele sentimento que mistura ansiedade, tensão, angustia e euforia no torcedor brasileiro, tão comum em semanas de clássicos ou disputa de títulos.



Bem mais do que isso, como escreveu o também jornalista e escritor Roberto Sander, em Sul-americano de 1919 – Quando o Brasil descobriu o futebol (**):


“Naquele instante, o futebol fazia a sua primeira grande mágica; a revolução que o tornaria um patrimônio cultural de toda uma nação, o seu próprio rosto, uma espécie de carteira de identidade, com impressão digital, fotografia e tudo mais que se tem direito. Ele misturava o povo simples dos becos, calçadas e favelas, que começavam a se formar, com os grã-finos das recepções, regadas ao melhor vinho francês e sofisticados canapés, nos salões suntuosos dos bairros mais elegantes da cidade.”



* Gigantes do futebol brasileiro

João Máximo e Marcos de Castro, Editora Civilização Brasileira/2011, 439 páginas




** Sul-americano de 1919 – Quando o Brasil descobriu o futebol

Roberto Sander, Maquinária Editora/2009, 84 páginas



Imagem 1: Formação da seleção brasileira que conquistou o Sul-americano de 1919 (Acervo da CBF)


Imagem 3: Construído para receber o Campeonato Sul-americano, o estádio das Laranjeiras tinha capacidade para 18 mil expectadores, mas cerca de 28 mil assistiram à final (Acerco da CBF)