Garrincha e o dia em que o 'olé' passou a fazer parte do futebol



E assim nasceu o grito de ‘Ôoooo-lé, ôooo-lé’! Foi no dia 20 de fevereiro de 1958, no Estádio Universitário, na Cidade do México. O Botafogo fazia uma excursão pouco depois de se tornar campeão carioca com a histórica goleada por 6x2 no Fluminense. No time, Nilton Santos, Didi, Zagallo e, lógico, o grande protagonista da história, Mané Garrincha.


Do outro lado, o atual tricampeão argentino, base da seleção que iria ao mundial da Suécia quatro meses mais tarde, o River Plate, de Carrizo, Nestor Rossi e Ángel Labruna, equipe conhecida como ‘La Máquina’, em sua segunda versão. Que tinha também o defensor Federico Vairo, o nosso antagonista.


Bola rolando para o jogo válido pelo torneio Pentágono dos Campeões, que contava ainda com as equipes mexicanas do Deportivo Guadalajara, Zacatepec e Toluca. Logo no comecinho, Vairo entra de vez numa disputa de bola com Garrincha. Começa o baile.


Um drible pra cá, outro pra lá, mais um acolá. O torcedor local, acostumado a frequentar as touradas, vai à loucura. Nunca havia visto aquilo num estádio de futebol. Cada vez que Garrincha partia com a bola para cima e deixava o seu marcador na saudade, um grito uníssono ecoava:


- Olé!


Quando o ponta alvinegro arrancava sem a bola e era acompanhado por Vairo como se com ela estivesse, os mexicanos não se continham. O coro ficava mais intenso e era seguido por uma gargalhada coletiva. Daquele dia em diante, o grito de ‘olé’ deixava de ser uma exclusividade das arenas de touradas e começava a fazer parte das arquibancadas dos estádios.


Pobre do marcador, que não se tratava de um jogadorzinho qualquer. Vairo está na galeria de ídolos do River, um dos seus melhores defensores e titularíssimo da seleção argentina que disputaria a Copa de 1958.


Com dó da situação do defensor e tentando minimizar a gozação, o técnico José María Minella o tirou da partida antes do final. Ao chegar ao banco de reservas, Vairo tentou explicar a Minella o baile que levara de Garrincha:


“Não há nada a fazer. É impossível”.

A partida que terminou empatada em 1x1, com gols de Nilton Santos e Héctor Scandoli, foi a primeira vez que Vairo marcou Garrincha (ou pelo menos tentou!). Por pouco, o duelo não acontecera no Sul-americano, que viria a se chamar Copa América, do ano anterior. Mané era reserva do time treinado por Oswaldo Brandão.


O titular na direita era Joel e, na única partida em que participou, na goleada por 7x1 sobre o Peru, entrou na vaga de Pepe, na esquerda. Garrincha viu do banco o Brasil ser goleado por 3x0 pela seleção argentina de Vairo, campeã da competição.


Ainda com Brandão no comando, logo após o Sul-americano, o ponta do Botafogo foi titular nos dois confrontos das Eliminatórias diante dos peruanos, que classificaram os brasileiros para a Copa da Suécia. Na mesma temporada 1957, o Brasil voltaria a encarar a Argentina, pela Copa Roca, mas o então técnico Sylvio Pirillo não chamou Garrincha. Sorte de Vairo.