Gérson e as histórias do camisa 8 que falava tanto quanto jogava



Pouco se fala de um dos maiores armadores da história do futebol nacional, campeoníssimo nos clubes em que passou e eternizado com a camisa 8 da Seleção Brasileira na conquista do tricampeonato mundial no México, em 1970. Pois bem, falaremos agora. E em várias outras oportunidades. Até porque, além de cracaço, a carreira de Gérson rendeu excelentes histórias (P.S.: mudamos a capa da nossa página em homenagem a ele!).


“Não dou dois anos para que este garoto chegue à seleção”. Foi a reação do técnico vascaíno Eduardo Pelegrino após ver o seu time ser engolido por um garoto com a camisa 10 do Flamengo na abertura do Campeonato Carioca Juvenil de 1959. Com 18 anos, Gérson já era considerado um jogador pronto.


Tanto que não demorou para que ele chegasse à condição de titular do time profissional do Flamengo e fosse convocado para vestir a camisa da seleção. Assim como previu Pelegrino, na temporada 1961. Sob comando de Fleitas Solich, passou a formar o meio de campo do rubro-negro ao lado de Carlinhos, ajudando na conquista do Rio-São Paulo daquele ano, adotando a camisa 8 desde então.


Logo depois veio a estreia na Seleção Brasileira, que disputava a Taça Bernardo O’Higgins contra o Chile, em Santiago. Jogando no ataque e não no meio, uma invenção de Aymoré Moreira, viu os seus ídolos Garrincha e Didi marcarem para o Brasil na vitória por 2x1. No segundo jogo, coube ao próprio Gérson marcar de pênalti o único gol da partida.

Daí em diante, já apelidado de Papagaio, por falar pelos cotovelos enquanto jogava, orientando os seus companheiros, como se fora um técnico dentro do gramado, Gérson construiu uma carreira espetacular.


Assim como era conhecido por sua liderança nata, pela precisão milimétrica nos lançamentos de 50 metros e a impressionante facilidade como finalizava de fora da área, ele também ficou marcado pela força do seu temperamento. Ao bater de frente com técnicos, como fez com Aymoré na Seleção Brasileira, por estar fora da sua posição, e dirigentes, reivindicando melhores condições para ele e seus companheiros, foi taxado de indisciplinado e reclamão.


Nem aí, ele estava para estes rótulos. Sua barba sempre por fazer e a camisa sem estar ensacada no calção (naquela época ambas as situações eram consideradas um desleixo), para não falar no hábito constante de fumar, carregavam as tintas na sua imagem de rebelde. E é daí que vem a história sobre a sua saída do Flamengo e estreia no Botafogo.


Flávio Costa, um técnico linha dura e pouco afável, comandava o time rubro-negro. Já dá para imaginar que a relação entre ambos gerava faíscas né? Pois bem, para piorar, Gérson ficou sabendo que o treinador estava planejando escalá-lo na vaga de Dida, no ataque, uma vez que o grande craque flamenguista estava numa quebra de braço com a diretoria para renovar contrato.


O Papagaio ficou indignado duplamente: pela não valorização do companheiro (tido por alguns como o maior jogador do clube antes de Zico) e pelo seu deslocamento de função na equipe. Não perdeu tempo. Ao técnico se dirigiu:


“Não sou tapa-buraco, seu Flávio”.

A relação, que nunca foi sequer razoável, piorou. Ele foi afastado do time uma vez, duas. Na terceira, Flávio Costa o encaminhou ao presidente Fadel Fadel, outro que já não via com bons olhos as constantes reivindicações quanto às premiações que tanto Gérson cobrava. Houve discussão, quase saiu tapa. No final, ouviu que deveria procurar clube. Valor do seu passe: 150 milhões de cruzeiros.


Em um encontro casual com o botafoguense Quarentinha, ele contou o caso, que logo chegou aos ouvidos do diretor de futebol alvinegro Renato Estelita. Menos de 24 hores depois, o cofre do clube foi aberto e parte do dinheiro da venda de Amarildo para o Milan foi retirada e depositada na conta do Flamengo, cujo presidente já dava sinais de arrependimento pela decisão tomada no dia anterior.


Arrependimento que só cresceria ao longo dos anos seguintes. No caso do cartola. Já Flávio Costa... No primeiro Botafogo x Flamengo daquele ano de 1964, pelo Torneio Rio-São Paulo, cerca de 45 mil pessoas que foram ao Maracanã quase presenciaram um técnico enfartando dentro de campo. Aos 34 minutos do primeiro tempo, Gérson acerta uma das suas pauladas indefensáveis, que os locutores costumavam dizer que ‘pegou na veia’. Botafogo 1x0.

O camisa 8 corre para comemorar na frente do banco adversário, encara Flávio Costa e com um sorrisão rasgado no rosto, passa a mão no queixo, como quem dissesse ‘não fiz a barba mas o jogo tá uma barbada”.

Estrebuchando, tentando sem muito sucesso xingar o seu desafeto tamanha a raiva, o técnico do Flamengo partiu para porrada. Foi contido pelos jogadores reservas e no banco mesmo ele ficou sob observação do médico, temendo que Flávio Costa tivesse um troço ali mesmo. No futebol, às vezes a vingança é um prato que se come quente.


Sim, o jogo terminou com vitória alvinegra por 2x1, com Garrincha e Aírton marcando os outros gols da partida. E Gérson seguiu jogando muita bola, falando bastante, rebelando-se em demasia.


Em breve, outras histórias do craque Papagaio.


FICHA TÉCNICA

Gigantes do futebol brasileiro

João Máximo e Marcos de Castro

Editora Civilização Brasileira (2011)

439 páginas