Futebol-raiz deve a um bebum o surgimento do seu mais folclórico goleador



O futebol brasileiro deve a um bêbado o surgimento do mais espetaculoso e folclórico goleador da sua história. Foi na tarde de um sábado de 1968, após um Flamengo e São Cristóvão, no Maracanã. O diretor do Atlético Mineiro Jorge Ferreira havia deixado Belo Horizonte no dia anterior para ver de perto o habilidoso meia Carlinhos, do simpático alvinegro da zona norte carioca, de quem ouvira falar muito bem.


O cartola mineiro comprovou com os próprios olhos o que havia escutado. Após o jogo, foi aos vestiários do São Cristóvão, conversou com o jogador e acertou a sua ida para o Galo. Na saída do estádio, Jorge Ferreira e Carlinhos foram interpelados por um bêbado. Empolgado, o meia foi se despedindo, avisando que de agora em diante seria jogador do Atlético Mineiro.


- Não basta levar apenas o Carlinhos, disse com alguma dificuldade o bebum, tentando fixar o olhar no diretor de futebol - o senhor precisa contratar também um atacante para aproveitar as jogadas dele. E quem sabe fazer gol é um tal de Dario.


Difícil levar a sério o conselho de alguém que mal consegue ficar em pé e pronunciar as palavras. Jorge Ferreira apenas riu, dando aquele ‘ah, tá certo’, mas sem interromper a caminhada. Até o seu braço ser seguro.


- O senhor precisa assistir ao jogo de amanhã do Campo Grande, insistiu.


A situação começou a ficar chata. O diretor do Galo tentou se desvencilhar do inconveniente conselheiro, que largou o braço mas o puxou novamente, agora, pela camisa.


- Por que o senhor não espera até amanhã para comprovar?


O puxa pra cá, puxa pra lá, e o tom já meio alterado de Jorge Ferreira chamou a atenção de um policial, que se aproximou e determinou que o bêbado largasse aquele cidadão. Após ouvir as explicações que motivaram o perrengue, o guarda saiu com um:


- Desculpe, mas ele tem razão.


- Como assim?, soltou o incrédulo cartola.


- O senhor deveria ficar na cidade mais um dia e assistir ao jogo do Campo Grande, completou o policial.


O dirigente arregalou os olhos, respirou fundo, e decidiu, finalmente, ceder à pressão. No dia seguinte, lá estava ele na arquibancada, com os olhos acompanhando aquele desengonçado centroavante tropeçar na bola. Fez menção de se levantar e ir embora algumas vezes. Mas desistiu. Teria saído no intervalo se um pouco antes Dario não marcasse um gol.


Esperaria pelo segundo tempo. E mais dois gols Dario marcou. O bêbado estava certo. Ele não dissera que se tratava de um craque, mas de um artilheiro. Alguém para botar a bola para dentro e ponto final. Ao término da partida, seguiu para o vestiário do Campo Grande e, com o dinheiro que tinha no bolso, acertou a contratação do centroavante.


Três anos depois, Jorge Ferreira voltaria ao Maracanã, já não mais como diretor de futebol do clube, e veria Dario subir mais do que o zagueiro do Botafogo e meter de cabeça o gol que daria o título da primeira edição do Campeonato Brasileiro ao Atlético Mineiro. Só não encontrou o bêbado na saída do estádio para agradecer e, quem sabe, comemorar juntos.


Esta é uma das tantas histórias sensacionais que traz o livro Dadá Maravilha, de Lúcio Flávio Machado. Um relato de vida de um cara que viu, aos cinco anos de idade, a mãe se suicidar botando fogo no próprio corpo, passou fome, entrou para marginalidade e encontrou a porta de saída no futebol.


E do futebol ele fez a sua alegria, e a alegria de dezenas de torcidas pelos tantos clubes que defendeu ao longo da carreira, recheada de gols e títulos. Fez a alegria até dos torcedores adversários, com suas inspiradas e célebres frases, com a sua irreverência e apelidos que criou para ele mesmo. O futebol brasileiro raiz passa por um cidadão chamado Dario, mas que atende por Dadá Maravilha, Beija-flor, Peito de aço...


FICHA TÉCNICA


Dadá Maravilha

Editora Del Rey (1999)

Flávio Lúcio Machado

224 páginas

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