Família da Guia e uma grande história de pai e filho craques de bola



“O seu futebol vem do berço. Cuidado com as divididas. Tem muita gente que entra na maldade. Cuidado com as negociações. Nas renovações de contrato, deixe que alguém de confiança faça por você. Nada de farras. Quanto menor o desgaste do corpo, maior o tempo de carreira. Vai com Deus, meu filho.”

Para homenagear todos os pais amantes do bom futebol, na postagem que antecede ao seu dia, nada melhor do que lembrar os Da Guia, com certeza a melhor referência de pai e filho craques de bola que o futebol brasileiro já viu. O conselho acima foi dado por Domingos, um dos maiores defensores de todos os tempos, a Ademir.


“No dia 7 de agosto de 1961, Domingos da Guia entrou eufórico em casa e disse para o filho: “Você vai jogar no Palmeiras! Em seguida, deu-lhe três conselhos.”, conta o escritor e maestro Kleber Mazziero, autor de Divino, a vida e a arte de Ademir da Guia, que traz belas histórias não apenas de um dos maiores camisas 10 do futebol brasileiro, mas também da sua relação com o seu pai.


Ademir herdou a grande classe, o refino no trato com a bola, aquela capacidade de antever a jogada, de Domingos. E não por mero acaso, recebeu parte do seu apelido: Divino. O Mestre era o pai quando jogador. Um zagueirão que nos anos 1930, época em que o beque de respeito eram batia até na sombra do atacante, ensinou ao mundo que um defensor poderia ser craque.


A qualidade com a bola nos pés, a incrível capacidade de antecipação e desarme, a frieza, a classe, chamaram a atenção dos vizinhos uruguaios e argentinos, por onde o profissionalismo havia chegado mais cedo e os seus grandes clubes conseguiam pagar altíssimos salários para os padrões da época.


Não demorou para que Domingos, que havia começado no Bangu, e se transferido para o Vasco em 1933, recebesse proposta para defender o Nacional de Montevidéu, campeão do Uruguai de 1934. No ano seguinte, foi a vez de levantar a taça do campeonato argentino com a camisa do Boca Juniors.


O Divino Mestre é considerado o primeiro jogador brasileiro a ganhar dinheiro de verdade mesmo com o futebol em virtude, principalmente, das temporadas jogadas no eldorado sul-americano. Mas que também, devido à fama que acumulou pelas bandas de lá, continuou a receber muito bem no seu retorno ao país.


Mas especificamente para o Flamengo. Foi uma contratação bombástica. O altíssimo investimento, pouco comum para época, deu ao clube um retorno inestimável nos sete anos em que esteve por lá.


Para muitos, Domingos foi responsável por iniciar o processo de popularização da torcida rubro-negra, tamanho era a mobilização para ver o Divino Mestre em campo. E por falar em clube de massa, transferiu-se em 1944 para o Corinthians, por onde ficou outros quatro anos, fechando o ciclo de jogador profissional no Bangu.


A frieza e equilíbrio dentro de campo era exercida também do lado de fora, na sua vida particular. Era o que se chama ‘um cara de família’. E foi assim que Domingos moldou outro gênio do futebol nacional. Ademir começou também no Bangu. Queriam, inicialmente, que ele fosse zagueiro, como o pai. Não deu certo. O meio de campo terminou atraindo aquele garoto de toque refinado.


“Eu não tive nenhuma influência na maneira de jogar do Ademir. Ele, como eu, nasceu sabendo jogar futebol.”, explicou Domingos, no livro.

Do juvenil, com 17 anos, ele logo subiu para o time profissional e viveu momentos de esplendor. Foi campeão do Torneio de Nova Iorque de 1960, enfiando 4x0 no Sampdoria.


No ano seguinte, a equipe do subúrbio carioca voltou à Big Apple e fez um jogo histórico contra o Barcelona, que venceu por 4x3. Os catalães gostaram e muito do que viram. Alguns jornais estamparam manchetes às quais cogitavam o interesse do clube em comprar o passe do brasileiro por 16 mil dólares. O negócio, no entanto, não foi fechado.


Mas Domingos, que havia se tornado o empresário do filhão, tinha uma certeza: era hora de Ademir ir para um clube maior. E, no retorno ao Brasil, Ademir foi. Foi para o Palmeiras por 3,8 milhões de cruzeiros, com luvas de 800 mil e salário de 60 mil.


O pai foi craque no gramado, na vida pessoal, com a família, e tratou de cuidar da carreira do filho, o Divino, maestro da lendária Academia palmeirense, equipe que chegou até a desbancar o Santos de Pelé.


Parabéns a Domingos, Ademir e a todos os pais do nosso futebol!



FICHA TÉCNICA


Divino, a vida e a arte de Ademir da Guia

Kleber Mazziero de Souza

Editora Gryphus (2003)

222 páginas