Do baú do mestre Armando Nogueira, a de Zizinho e Leônidas da Selva


Do baú, que parecia não ter fundo, de histórias do grande Armando Nogueira (*) vem um desses causos engraçados do mundo da bola. Era a estreia pela seleção brasileira de Leônidas, não o da Silva, o craque, mas o da Selva, centroavante de mais força e menos jeito. Um amistoso contra o Paraguai.


Por diversas vezes, Zizinho, não por acaso chamado de Mestre Ziza, dava passes magistralmente na medida para o camisa 9, no espaço vazio, aquelas bolas de quem diz ‘faz o teu’. E Leônidas nada de entender, de acompanhar o raciocínio do cracaço da seleção, o que ia irritando a torcida cada vez mais, já ensaiando algumas vaias para o novato.


Quando acabou o primeiro tempo, no vestiário, Leônidas não se conteve e, suplicante, foi fazer um pedido inusitado, mas verdadeiramente honesto ao companheiro:


“Seu Zizinho, por favor, não me dê mais aqueles passes inteligentes. Não adianta, para mim, não adianta. O senhor, faz favor, manda a bola em cima dos beques. Eu prefiro assim: eu vou lá e divido com eles”.

O segundo tempo começou e, ao gosto do freguês, Zizinho dominou uma bola e mirou no zagueiro paraguaio. Leônidas partiu com tudo para a dividida, chutando o toco, a grama e, inclusive, a bola. Gol do Brasil, de Leônidas da Selva.


Em tempos bicudos para seleção brasileira, fica a lição: cada um dá o que tem.


(*) Do livro Bola na Rede, que reúne crônicas do mestre Armando Nogueira


Foto: Arquivo Nacional (amistoso da seleção brasileira contra a Itália, no Maracanã, vencido pelos brasileiros por 2x0, em 1956. Além de Zizinho e Leônidas da Selva, devidamente identificados, outro monstro sagrado do futebol nacional, e mundial, Didi, à direita de LS)