Como Julinho transformou a maior vaia do Maracanã em aplausos



Que pecado cometera um jogador para ser vaiado ininterruptamente do anúncio da sua escalação, passando pela entrada da equipe no gramado, o hino nacional, até os sete minutos de bola rolando? Perdera um daqueles gols que costumávamos dizer que até nossa vovozinha faria? Mandou nas nuvens a cobrança de um pênalti decisivo dias antes? Ou fora desmascarado ao tramar contra o técnico ou companheiros do time, flagrado na condição de traíra?


Talvez nenhuma das situações justificasse tamanha e teimosa ira vinda das arquibancadas. Pois bem, e não foi por nenhuma das situações citadas acima que, oito anos e dez meses depois de agonizar com o mais estrondoso silêncio da sua história, o velho e bom Maracanã escutaria a mais prolongada vaia da sua existência. E o motivo? Ciúme. A torcida brasileira presente ao estádio para o amistoso contra a Inglaterra em 13 de maio de 1959 estava ciumenta.


Era pouco menos de um ano após a conquista do primeiro título mundial, taça levantada na Suécia sob a regência de Didi, a genialidade de Pelé e os mágicos dribles de Garrincha. Dos três, apenas os dois primeiros estavam escalados para pegar os ingleses. Já Garrincha, que parecia ainda comemorando a copa, estava fora de forma, mal treinava e das concentrações fugia constantemente. Certamente para se encontrar com a bela vedete Angelita Martinez, com quem estava enrabichado.


Apesar de tudo isso, era Garrincha quem a torcida nacional queria ver com a camisa 7 da seleção. Os quilos a mais, a lentidão em campo, a dispersão, eram meros detalhes. O ponta do Botafogo havia conquistado o Brasil não apenas com os seus imparáveis dribles, mas também pelo seu jeitão simples, de boa praça. E conquistara uma espécie de salvo-conduto junto aos torcedores. Nada que fizesse, abalaria aquele clima de lua de mel com os brasileiros.


E ai de quem se metesse a besta de se candidatar a tomar o seu lugar no time nacional. Foi aí que Julinho entrou. Um craque que estivera fora do grupo campeão na Suécia por jogar na época pela Fiorentina (sim, naqueles anos dourados atuar fora do país era motivo de não convocação), mas que por justiça ganhava oportunidade no amistoso contra os ingleses.

Os quase 130 mil torcedores que ganharam as arquibancadas do Maracanã naquele dia tinham a consciência de que Garrincha, por motivos óbvios, poderia ser barrado. Mas fizeram questão de esquecer, impressão tida pela reação uníssona após o locutor do estádio anunciar pelos autofalantes a escalação do time, com um outro vestindo a 7.


A vaia entrou pelo vestiário, pelo ouvido, pela alma, de Julinho, que desabou em choro. Enxugando as lágrimas, subiu os degraus que levavam até o gramado, cantou o hino nacional e ouviu o apito inicial. Daí em diante, por se tratar de um cracaço, mostrou-se maior do que todo aquele cruel barulho ensurdecedor. Tratou de, inicialmente, reduzir a intensidade dos apupos ao deixar um marcador sem pai nem mãe, na primeira vez em que levou a bola para cima de um adversário.


Aos sete minutos, calou o Maracanã, por algumas frações de segundos. Gol de Julinho. E como se alguém apertasse um botão, trocando o modo vaia por vibração, o estádio quase veio abaixo. Uma explosão em forma de grito de gol, de pedido de desculpa. Até o final do jogo, aquele ponta que havia tomado o lugar de Garrincha foi festejado a cada bola que parava em seus pés. Numa dessas, cruzou para Henrique marcar o segundo gol brasileiro sobre os ingleses.


Em Os garotos do Brasil, um passeio pela alma dos craques, Ruy Castro conta a história e o sentimento de tristeza que o episódio deixou em Julinho, 35 anos depois, quando o escritor entrevistou o craque para a biografia de Garrincha. “Nunca entendi por que Julinho preferia transformar em derrota a grande vitória da sua vida”, escreveu. Os dez minutos de vaias foram mais marcantes do que os 85 de aplausos.