'Brandao, El Mestre' também para os 'hinchas' do Independiente



Ser amado por torcedores de ferrenhos rivais, é para poucos. Na dimensão da idolatria que Oswaldo Brandão criou, é única no futebol brasileiro. O ‘Mestre’ foi multicampeão e recordista em número de jogos comandando Corinthians e Palmeiras entre as décadas de 1940 e 1970. O nome do treinador gaúcho de Tapera, no entanto, não está tatuado apenas na memória da dupla paulistana.


No próximo dia 17, será dia dos torcedores do Independientes, da Argentina, render homenagens aos 52 anos de um título inesquecível, com um time tido por muitos hermanos como o melhor da história do clube. Com certeza, o de melhor desempenho. Não por acaso, Brandao, sem o ‘til’ mesmo, será sempre lembrado por ‘sus hinchas’.


O Independiente foi quem sucedeu o Santos de Pelé e companhia na hegemonia do futebol sul-americano na primeira metade dos anos 1960, conquistando a Libertadores de 1964, último ano em que ainda se chamava Copa dos Campeões da América, e a de 1965.

Um ano depois, a tentativa de ser o primeiro clube a faturar o tri da competição terminou frustrada com uma derrota para o River Plate num jogo extra de desempate das semifinais, no estádio do San Lorenzo, por 2x1. Foi quando a diretoria resolveu chamar de volta Oswaldo Brandão, que havia treinado a equipe roja em 1961.


Além de uma campanha histórica do Independiente de Brandao, a temporada 1967 foi marcada por uma mudança no futebol local, que teria a disputa de duas competições: o tradicional Metropolitano, conhecido até então como o campeonato argentino, restrito a clubes da Grande Buenos Aires e La Plata, e o novo Nacional, com a inclusão de equipes de outras ligas de fora.


Brandão preferiu não mexer tanto no elenco que recebeu, trouxe apenas uma ou outra jovem promessa de clubes menores. Mas alterou taticamente a equipe, deixando-a bem mais ofensiva, sem perder a solidez lá atrás. O Metropolitano serviu de teste, que teria sido satisfatório para o torcedor do Independiente se o campeão não tivesse sido o maior rival: o Rancing.


Mas o que estava por vir suplantaria com muita folga qualquer lembrança negativa do trabalho do treinador brasileiro. Os rojos atropelaram os adversários no Nacional com um excepcional quarteto de atacantes: Bernao, Luis Artime, Héctor Yasalde, um dos novatos, garoto descoberto por Brandão, e Aníbal Tarabini.


Das 15 partidas disputadas, os rojos perderam apenas uma (para o San Lorenzo, por 3x1), vencendo 12 e empatando duas. Era uma máquina projetada para fazer gols. Artime foi o artilheiro com 11, Yasalde, o vice, com 10. Mas os sons do balançar das redes adversárias que mais ecoam na memória dos torcedores do Independiente até hoje aconteceram no dia 17 de dezembro.


Era o clássico diante do Racing, no Estádio Libertadores da América. Jogo em que bastaria apenas o empate. O resultado se manteve durante todo o primeiro tempo. O time de Brandão voltou para o segundo tempo com uma fome impressionante de gols. Aos dois, Tarabini. Aos 10, e aos 23, Artime.


A arquibancada do Doble Visera era só festa quando, nos minutos finais, Savoy deu a última carimbada na faixa de campeão mundial que o Racing havia conquistado cerca de 40 dias antes. Os torcedores do Independiente estavam com a alma lavada, passada e engomada, como diria um lendário personagem do mestre dramaturgo Dias Gomes.


O jornal Clarín saudou a conquista em suas páginas com um título ‘Brandao armó un ballet: Fútbol en estado puro de la mitade para la delante y solidez y mecánica atrás’. O título e a forma única como foi conquistado, com mais de 86% de aproveitamento, não foram suficientes para convencer Brandão a ficar.

Ele já não suportava as tentativas de interferência no time do presidente Carlos Radrizzani, com quem batia de frente o tempo todo. No dia seguinte à goleada histórica sobre o rival, anunciou a sua volta ao Brasil, apesar das súplicas dos jogadores do time.


Alguns chegaram a desabar em choro. Em vão. Em respeito à torcida e aos seus jogadores, não aceitou nenhuma das muitas propostas, algumas milionárias, para retornar ao futebol argentino comandando outra equipe.


FICHA TÉCNICA

Oswaldo Brandão, libertador corintiano, herói palmeirense

Editora Contexto (2014)

Maurício Noriega

209 páginas