Brandão fez palmeirenses e corintianos concordarem em alguma coisa



Oswaldo Brandão foi um dos maiores treinadores do futebol brasileiro. E não apenas pelo número de títulos conquistados, métrica, quando usada como única e determinante, torna-se rasa e simplória para dimensionar a grandeza de um jogador ou técnico atualmente. Brandão levantou, sim, bastante taças, algumas pesando toneladas de dramas e contextos históricos que vão bem além do ‘1+1=2’.


Coube ao gaúcho radicado em São Paulo no início dos anos 1940 a missão de transitar nos corações de duas torcidas de rivalidade extrema, de se tornar o maior técnico da vida de dois clubes nascidos e criados para não haver pontos em comum. Coube a Oswaldo Brandão subverter a ordem e se tornar a exceção das exceções que faz palmeirenses e corintianos concordarem em alguma coisa.


Tudo começou em 1942 quando Caçamba, vindo do Internacional, foi aprovado em um teste para jogar no Palestra. Sua estreia foi contra o São Paulo, no Pacaembu. Empate em 1x1 em peleja válida pelo torneio Quinela de Ouro. Pouco mais de um depois, na Vila Belmiro, diante do Santos, rompeu os meniscos do joelho direito. Passou por uma operação, não tão bem sucedida, o que o obrigou a encurtar a sua trajetória como atleta.


O parágrafo acima resume a carreira de jogador de futebol de Brandão. A de técnico, iniciada nas divisões de base do próprio Palestra, pouco antes de se tornar Palmeiras, caberia apenas em livro, como bem escreveu o jornalista Maurício Noriega a biografia Oswaldo Brandão, libertador corintiano, herói palmeirense.


Apesar do pouco tempo no clube, o então Caçamba havia conquistado a simpatia dos jogadores e funcionários com o seu jeito brincalhão, boa praça, fora de campo, além do respeito e admiração dos diretores, pela sua seriedade e dedicação quando estava no gramado. Tanto que com a sobrinha do diretor Antônio Langone Barone, ele casou.


Seus laços com a família verde e branca estavam mais que bem amarrados. Só um detalhe: Luiza, a esposa, era uma ovelha desgarrada dos Barone quando o assunto era futebol e torcia pelo Corinthians. Parecia que o destino queria dizer alguma coisa...


No ano em que casou, em 1945, Brandão foi chamado para assumir interinamente o time principal, até então ainda fazendo uma ou outra partida como jogador. Dois anos depois, foi efetivado como técnico da equipe profissional do Palmeiras e, de cara, conquistou o Campeonato Paulista de 1947, a primeira das quatro taças estaduais que ele iria ajudar a colocar na galeria do clube.


Inquieto, o jovem técnico decidiu ir atrás de desafios maiores. Passou pelo Santos, que não ganhava nada desde 1935 e conseguiu o título da Taça Cidade de São Paulo de 1949. Dois anos depois, foi a vez de trabalhar na Portuguesa de Desportos e formar um dos maiores times da história do clube entre 1951 e 1952, ficando também marcado para sempre nas mais felizes lembranças dos torcedores da Lusa.


Em 1953, quando já sentia falta dos ares palmeirenses e aguardava um convite para voltar a treinar o time, foi surpreendido pela visita em sua residência de uma tropa de choque corintiana, liderada pelo diretor de futebol Vicente Matheus. A proposta para treinar o grande rival do Palmeiras era muito boa para os padrões da época e Brandão não pensou duas vezes.


A temporada seguinte seria especial. Em 1954, a cidade de São Paulo completaria 400 anos de fundação e o campeonato do título quatrocentão dava um tempero a mais ao estadual, que ganhava ano após ano maior presença de público e interesse da imprensa. Palmeiras e Corinthians eram as duas principais forças do estado, com o São Paulo começando a se meter entre os dois. O Santos ainda não era o Santos.


E com Oswaldo Brandão no comando alvinegro, o Corinthians chegou à decisão do título com o Palmeiras, precisando apenas de um empate no Pacaembu. Luizinho, conhecido como o Pequeno Polegar, um dos maiores jogadores do clube, abriu o placar para os alvinegros, no primeiro tempo. Nei deixou tudo igual, no segundo. O 1x1 deu o título ao time de Brandão, que passaria um longo e incômodo jejum de conquistas.


Incômodo dos corintianos que aumentava ainda mais ao ver o rival viver uma fase áurea. E no comando de Oswaldo Brandão, a partir do final dos anos 1960. O Palmeiras desbancou o Santos de Pelé e companhia, em 1969, faturando o título nacional. Em 1972, quando também venceu o estadual, e 1973, o bicampeonato brasileiro.


Era o tempo da lendária Academia de Futebol do Palmeiras, com nomes do quilate de Luís Pereira, Dudu, Ademir da Guia e Leivinha, sob a batuta do Mestre Brandão, que, em 1974, estaria mais uma vez decidindo mais um título no mais tradicional clássico do estado. E prolongando o sofrimento dos alvinegros com a vitória por 1x0 no Morumbi.


Era o quinto título alviverde em cinco anos. O sexto individual do técnico, que em 1971, numa rápida passagem pelo São Paulo, para não perder o hábito, havia sido campeão paulista, seu único troféu pelo tricolor. Brandão era o nome da vez para a seleção brasileira – já havia tido curtas passagens nos anos 1950.

Desta vez, poderia ter feito mais. Uma nova e promissora geração de craques surgia em meados da década de 1970. Com Brandão, a seleção venceu a Copa Roca e o Torneio Bicentenário da Independência dos Estados Unidos, ambos em 1976. Mas caiu no ano seguinte, num empate com a Colômbia.


O bombardeio de críticas da imprensa carioca em cima de Brandão, que barrara Marinho Chagas, do Botafogo, para escalar Wladimir, do Corinthians, era a deixa para a CBD, dirigida pelo almirante Heleno Nunes, transformar o então auxiliar técnico, e capitão do exército Cláudio Coutinho, em treinador. Assim como em 1970, os militares do governo também interferiram nos rumos do futebol brasileiro para a Copa de 1978.


Brandão desembarcou em São Paulo, vindo de Bogotá, demitido. Foi um baque para o técnico que sonhava em ir a uma copa do mundo. Mas ele não teria muito tempo para lamentações. Logo depois receberia uma missão tão ou mais complicada do que a da seleção brasileira na Argentina: tirar o Corinthians da fila de títulos que já durava 23 anos. O último havia sido conquistado pelo próprio treinador em 1954.


Ele era o técnico tipo paizão, inclusive chamado como tal por vários jogadores, que sabia tirar o máximo de cada um, na base do diálogo, do cuidado com os atletas, blindando o grupo, quando necessário, da pressão da imprensa, da torcida, e até dos próprios dirigentes.


Era mestre também em mexer emocionalmente com o jogador nas conversas de vestiário, como fez com Palhinha, após a derrota para a Ponte Preta por 2x1 na segunda partida da melhor de 3 que decidiria o campeonato. Brandão expôs o seu drama pessoal de pai, cujo filho estava num leito de hospital, desenganado pela medicina.


“A minha dor é muito maior do que a sua e eu estou aqui trabalhando para dar o título ao Corinthians e para esse povo bom que paga nosso salário”.

Além de Palhinha, outros jogadores que ouviram a conversa choraram. O craque do time não chegou a se recuperar a tempo para jogar a terceira partida, mas o recado de superação do treinador havia sido incorporado em todo o grupo.


Brandão tinha métodos também nada convencionais também. Inclusive, mediúnicos. Na manhã da grande decisão do título de 1977, ele invadiu o quarto onde dormia Zé Maria e Basílio, ambos eram dúvidas para o jogo, botou o pé no pescoço de Basílio e disse: “Levanta, Neguinho, que hoje eu sonhei que você vai fazer o gol do título!”.


No Corinthians, Brandão ganhou os paulistas de 1954 e 1977, além do Rio-São Paulo de 1953, 1954 e 1966. Foram 441 jogos no comando da equipe, recorde até hoje não superado. No Palmeiras, foi o único a comandar o time por 584 partidas, faturando os títulos nacionais de 1969, 1972 e 1973 e os estaduais de 1947, 1959, 1972 e 1974.



FICHA TÉCNICA


Oswaldo Brandão, libertador corintiano, herói palmeirense

Editora Contexto (2014)

Maurício Noriega

209 páginas