Bellini e Mauro, dois gigantes que levantaram a taça com honras



A seleção brasileira já estava no Chile, na reta final de preparação para a estreia na Copa do Mundo de 62. O técnico Aymoré Moreira havia praticamente definido o time que entraria em campo para encarar o México no dia 30 de maio: o mesmo que havia levantado o caneco quatro anos antes na Suécia, com exceção da entrada do quarto zagueiro Zózimo na vaga de Orlando.


Embora tivesse sido titular nos três últimos amistosos antes do embarque da seleção, contra Portugal e País de Gales, duas vezes, o zagueiro Mauro voltou a figurar no time reserva durante os treinamentos em solo chileno, reforçando a sua suspeita de que mais uma vez ficaria no banco de reservas, assistindo e disputando uma copa do mundo.


Acontecera isto três vezes: em 50, foi reserva de Juvenal; em 54, de Pinheiro; em 58, de Bellini. E tudo se encaminhava para ser a quarta vez. Aos 32 anos, o mundial do Chile seria com certeza a sua última participação em copas. Insatisfeito com a situação e consciente de que, pelo menos desta vez, estava em melhor condição do que Bellini, Mauro resolveu se insurgir.


Se fosse para não jogar, era melhor voltar para o Brasil. Foi o que ele disse de forma muito tranquila e educada a Aymoré. Em qualquer outra situação, o técnico ficaria com os brios feridos, o ego esfacelado. Como assim, um jogador exigindo a titularidade, passando por cima do comandante, isso não pode e etc.


Talvez por entender que Mauro realmente estava por merecer a vaga, o treinador pôs a vaidade de lado e buscou contornar o que poderia vir a ser um grande problema para o grupo às vésperas da copa. Na lambuja, respondeu ao zagueirão: “Era o que esperávamos ouvir, Mauro. O titular será você. E será também o capitão”.


Mas seria preciso também conversar com o então titular, capitão e líder indiscutível entre os jogadores da seleção. E Bellini foi Bellini, na grandeza que Deus havia lhe dado.


“É justo. Agora é o Mauro”, respondeu a Aymoré, sem arrodeio ou meias palavras. O próprio Mauro ficou de queixo caído com a tranquilidade e segurança do seu companheiro.

O que aconteceu daí em diante todo mundo sabe. Mesmo sem Pelé a partir da segunda partida, e com Garrincha jogando tudo e mais um pouco, o Brasil se sagrou bicampeão mundial. E Mauro ergueu a Jules Rimet. Moral da história: quando a vaidade e o egocentrismo são deixados de lado e prevalece o bom senso em prol de um objetivo maior, o resultado aparece.


A partir deste episódio, Mauro e Bellini, que eram apenas respeitosos colegas de profissão, passaram a ser amigos pessoais para o resto de suas vidas. O curioso, além do episódio em si, são as circunstâncias que envolveram os dois ao longo de suas carreiras, do começo até o final.


Ambos são de Minas Gerais, do interior do estado. Mauro, de Poços de Caldas, iniciou jogando nos clubes locais até ser contratado pelo Sanjoanense, clube da cidade de São João da Boa Vista (SP). Em 1948, chamou a atenção dos olheiros do São Paulo, que o levaram para o Morumbi.


Para ocupar a vaga deixada por Mauro, a diretoria do Sanjoanense foi buscar um zagueiro na mineira Itapira, que diziam ser tão bom quanto o antigo titular, e atendia pelo nome de Bellini. Não demorou e o Vasco foi busca-lo no interior paulista. Em São Januário, o zagueiro entrou para a história do clube e só saiu em 1961, quando foi negociado junto ao São Paulo, que tinha perdido Mauro para o Santos.


Parece roteiro de filme, mas foi real. Bellini sucedeu Mauro na Sanjoanense e no São Paulo. Mauro sucedeu Bellini na seleção brasileira.


A história é contada em Os garotos do Brasil, um passeio na alma dos craques, de Ruy Castro, e também na biografia Bellini, o primeiro capitão campeão, de Giselda Bellini, sua esposa.


Viva Bellini, viva Mauro!


FICHA TÉCNICA:



Os garotos do Brasil, um passeio pela alma dos craques

Foz Editora (2014)

Ruy Castro

136 páginas



















Bellini, o primeiro capitão campeão

Giselda Bellini

Editora Prata (2015)

208 páginas