Barbosa: a sorte e o azar no caminho de um grande goleiro



Menos de dois anos depois da fatídica final da copa no Maracanã, em março de 1952, O Globo Sportivo trouxe uma boa matéria sobre Moacir Barbosa, goleiro de muitas qualidades técnicas, que até então colecionava títulos desde a sua chegada ao Vasco, em 1945, e com a Seleção Brasileira, mas cuja carreira era marcada por altos e baixos. O título ‘A sorte brinca com Barbosa’ foi mais que oportuno.


Prestes a completar 24 anos de idade e já considerado um dos melhores goleiros do futebol paulista, Barbosa foi contratado pelo Vasco junto ao Ypiranga, no início de 1945. O titular era Barqueta, que além de estar sem um suplente à altura, já não conseguia manter uma regularidade no arco cruzmaltino. Importar o jovem goalkeeper, reserva da seleção de São Paulo, foi a solução para o técnico Ondino Vieira.


A chance de ganhar a posição para Barqueta e fazer parte do time que conquistaria o campeonato carioca daquele ano acabou quando, ainda no começo da temporada, quebrou o dedo. Pouco jogou, ainda assim o suficiente para mostrar as suas qualidades e ser chamado para a Seleção Brasileira que disputaria a Copa Roca, em meados de dezembro. Mesmo como terceiro goleiro, nada mal para um novato que enfrentara contusão logo na chegada.


Entra aí aquela incrível combinação de circunstâncias que tratamos como ‘sorte’ e ‘azar’. Ary estava sendo o mais cotado para começar de frente na estreia, embora Oberdan, que vinha como titular da seleção desde a temporada anterior, estivesse no páreo. A definição seria anunciada momentos antes de a bola rolar. Certo mesmo era que Barbosa estava ali mais para compor o grupo.


A princípio, era isso. Até o técnico Flávio Costa ser avisado, na concentração da Seleção no Pacaembu, local da partida, que Ary e Oberdan amanheceram doentes. O primeiro, sem condição alguma de entrar em campo. O segundo, na base do sacrifício poderia ser o reserva. A camisa de titular caiu no colo de Barbosa para fazer a sua estreia pela Seleção Brasileira.


Seria o que chamamos de ‘sorte’ se o goleiro do Vasco estivesse no melhor da sua forma, com ritmo de jogo. Mas não estava. E isso ficou claro no começo da partida, com a seleção argentina partindo com tudo, encurralando os brasileiros, como se em Buenos Aires estivesse. Pouco demorou e o placar do Pacaembu já marcava 2x0 para os visitantes, com falhas de Barbosa nos gols.


Mesmo adoentado, Oberdan substituiu o estreante durante aquela partida, perdida por 4x3, e nas outras duas contra os hermanos, vencidas por 6x2 e 3x1. A infeliz participação na sua primeira partida pela Seleção tirou o nome de Barbosa das listas de convocação por dois anos. Mais pela impressão inicial deixada no Pacaembu do que pelas atuações que o goleiro do Vasco vinha fazendo.


Em 1946, o time de São Januário não fez um bom Carioca, terminou em quinto. Mas como a competição precisaria se estender em função do supercampeonato, ficou decidido que a seleção carioca que disputaria as semifinais do Brasileiro contra Minas Gerais seria representada pelo Vasco da Gama. Mundinho, do São Cristóvão, era a exceção à regra. A seleção carioca passou pelos mineiros e pelos paulistas e ganhou o título nacional, com Barbosa fazendo grandes atuações.


Em 1947, veio o título o título estadual, em 1948, o do Torneio dos Campeões, uma espécie de precursora da Libertadores, no Chile. Barbosa foi o goleiro menos vazado e escolhido pelos cronistas para seleção do torneio, ganhando a disputa com o lendário goalkeeper argentino Carrizo, do River Plates.


O camisa 1 vascaíno viveria naqueles anos finais da década de 1940 a melhor e mais estável fase da sua carreira. Até as contusões graves, que não foram poucas, deram uma trégua. O título do Torneio dos Campeões, muito graças às suas arrojadas defesas, serviu para tirar de uma vez por todas a dúvida se Barbosa era o melhor goleiro do país.


Na mesma temporada de 1948, ele retornava à seleção nacional para a disputa da Copa Rio Branco com o Uruguai, em Montevidéu. Na primeira partida, começou jogando no empate em 1x1. Flávio Costa optou pelo revezamento da camisa 1 no segundo. E se arrependeu duramente. 4x2 para a Celeste, com Luiz Borracha falhando feio em dois gols sofridos. Barbosa tinha de ser o titular.


E foi, de forma inquestionável, em 1949, ajudando a garantir à seleção o título da Copa América, disputada no Brasil (no mesmo ano foi também campeão carioca). E vinha sendo até a sua 17ª partida consecutiva como titular do scratch nacional, a da final da Copa de 1950, onde falhou no segundo gol uruguaio e pagou a conta praticamente sozinho pela taça que não veio.


(P.S.: No início do ano da copa, o Brasil disputou a Taça Oswaldo Cruz diante do Paraguai usando um time quase todo reserva e Castilho foi o goleiro).


Pelo Vasco, Barbosa seguia dando alegrias. No mesmo 1950, onde já havia conquistado antes do mundial o Brasileiro pela seleção carioca, o goleiro ajudava a colocar mais um troféu na galeria do clube, o do bicampeonato estadual.


Pela seleção brasileira, Barbosa só jogaria mais uma partida. Em 1953, na vitória sobre o Equador por 2x0, no Estádio Nacional de Lima, pela Copa América. Foi uma espécie de despedida extraoficial bancada pelo técnico Aymoré Moreira, que já contava a sua disposição com Castilho e Gilmar em grande forma, enquanto o goleiro do Vasco, com 33 anos e começando a perder espaço no clube, estava longe do seu melhor momento.


No ano anterior, no entanto, a sua não convocação para a disputa do Campeonato Pan-americano, foi motivo de surpresa, segundo o texto do repórter Ricardo Serran, na matéria de O Globo Sportivo:


“Procurem nos jornais as últimas atuações dos arqueiros do Rio e de São Paulo, confrontem suas performances com Barbosa e vejam quem tem sido o número 1”.