As tabelinhas geniais do Rei Pelé e do Poetinha Vinícius de Moraes



No dia 20 de janeiro de 1966, o governo francês condecorou dois dos maiores artistas da cultura popular brasileira, Vinícius de Moraes e Pelé, com a medalha de honra ao mérito, ou Legion d’Honneur. Na oportunidade, eles não se encontraram para receber juntos a honraria.


O primeiro contato entre ambos veio de forma, digamos, metafísica. No dia seguinte, dia 21 de janeiro, o Poetinha escreveu uma carta para o Rei do Futebol através da sua coluna no jornal Última Hora: Um abraço em Pelé, na qual rasga elogios e se diz honrado por estar dividindo tamanha condecoração com o então camisa 10 da seleção e do Santos.

Passaram-se quase dois anos e meio para que os dois, enfim, pudessem se encontrar. Foi no dia 13 de agosto de 1968. Por acaso. Pelo menos, em parte. Pelé estava em Buenos Aires com o restante do time do Santos para um amistoso. Vinícius de Moraes estava em Buenos Aires para o seu primeiro show em solo portenho. A coincidência das agendas colocou os dois na mesma cidade. Mas parou por aí. Foi a vez do craque dos gramados tomar a iniciativa.


A apresentação do Poetinha estava no começo quando o produtor do evento foi chamado para comparecer à entrada do Teatro Ópera, completamente lotado. Ao chegar lá, se deparou com Pelé e outros quatro santistas. O pedido para entrar e assistir ao espetáculo foi atendido de imediato. Sabe como é que é, né? Pedido de Rei... O camisa 10 entrou pelos fundos do teatro e teve acesso ao palco. Ao vê-lo, Baden Powell sacou do seu violão um improvisado sambinha. Parecia algo armado, mas foi uma baita surpresa para Vinícius. Imagina para o público. O Ópera ficou de pé para aplaudir os dois brasileiros tão parecidos pela genialidade.


UM ABRAÇO EM PELÉ (*)

(Vinícius de Moraes)


Eu ainda não tive o prazer de lhe ser apresentado, meu caro Pelé, mas agora, com o fato de termos sido condecorados juntos pelo governo de França - você no grau de Cavaleiro e eu no de Oficial: e mais justo me pareceria o contrário - vamos certamente nos conhecer e tornar amigos. Ninguém mais que você merece tão alta distinção, sobretudo por ter sido conferida espontaneamente - pois ninguém mais que você tem levado o nome do Brasil para fora de nossas fronteiras. Da Sibéria à Patagônia todo mundo conhece Pelé; e eu estou certo de que você entraria fácil na lista das dez personalidades mais famosas de nossos dias.

Não posso disfarçar o orgulho que a condecoração me causa, embora seja, de natureza, avesso a honrarias; e orgulho tanto maior porque nela estamos juntos: preto e branco (as cores do meu Botafogo!) e também as cores irmãs de nossa integração racial. Sim, caro Pelé, nós representamos, em face da comenda que nos é conferida, o Brasil racialmente integrado, o Brasil sem ódio e sem complexos, o Brasil que olha para o futuro sem medo porque, apesar dos pesares, é bom de mulher, bom de música, bom de poesia, bom de pintura, bom de arquitetura e bom de bola. Particularmente por isso considero-me feliz de estar a seu lado no momento em que nos colocarem no peito a condecoração.

Que você tenha sido distinguido pela Ordem Nacional do Mérito da França nada me parece mais natural. A França sempre deu um alto valor ao gênio, e você, meu grande Pelé, é um gênio completo, porque o seu futebol representa um reflexo imediato de sua cabeça nos seus pés.

Eu não sou gênio, não. Eu tenho que pensar um bocado para que a mão transmita direito o que a cabeça lucubrou. Meus gols são mais raros que os seus. Você é com justa razão chamado o Rei. Quanto a mim, que rei sou eu?

Mas nada disso turva a satisfação que sinto em ser o seu Coutinho nesta nova investida do Brasil na área internacional. Parabéns, meu caro Pelé. Parabéns e o melhor abraço aqui do seu irmãozinho!



(*) Crônica originalmente escrita para o jornal Última Hora, publicada em 21 de janeiro de 1966 e publicada depois no livro Um time de primeira, grandes escritores falam de futebol.



FICHA TÉCNICA


Um time de primeira, grandes escritores brasileiros falam de futebol

Coletânia

Editora Nova Fronteira (2014)

192 páginas