Aniversário do gol de número 500 de Pelé. Ele tinha apenas 21 anos




Fazia um calor dos diabos em Santos, naquela tarde de domingo. O ponteiro dos minutos do relógio do juiz Eunápio de Queiróz mal havia dado 34 voltas da primeira etapa quando Coutinho desceu pela meia direita e enfiou para Pelé. O camisa 10 arrancou, deixando Roberto para trás. Antes que Belline desse combate, bateu com força, curva e precisão milimétrica. Bola no canto direito de Suli, cujo esforço de nada adiantou. Gol do Santos. Gol de Pelé. O quinquagésimo gol de Pelé.


Há 57 anos, o garoto Edson Arantes do Nascimento, ainda com 21 anos (completaria 22 menos de dois meses depois), chegava a uma marca invejável. O primeiro gol marcado como profissional, aos 15 anos, havia acontecido em 1956, diante do Corinthians de Santo André, na sua estreia com a camisa do Santos, na vitória pelo mítico placar de 7x1.


Em seis anos de carreira, Pelé já era Rei. Havia conquistado a Copa do Mundo da Suécia, em 1958, e a do Chile, menos de três meses antes do gol 500. Com a camisa santista, fazia parte da sua recheada coleção os títulos dos campeonatos paulistas de 1956, 1958, 1960 e 1961. Na tarde calorenta do domingo 2 de setembro de 1962, o Peixe defendia a liderança do estadual diante do São Paulo.

Na Vila Belmiro, 14.621 torcedores pagantes viram os visitantes abrirem o placar logo no primeiro minuto de jogo. Um pênalti, convertido por Dias. O mesmo Dias também faria o segundo aos 22. São Paulo 2x0. Certamente, pensaram os santistas, lamentando, os cronistas, analisando, os adversários, torcendo: ‘o time do Santos está de ressaca e não será o time do Santos nesta tarde’.


Três dias antes, aquela mesma equipe estivera em Buenos Aires, no estádio Monumental de Nuñes, para disputar a terceira partida decisiva da Libertadores da América contra os uruguaios do Peñarol. O Santos havia vencido a primeira, em Montevidéu, por 2x1, perdido a segunda, na Vila, num contestadíssimo 3x2, e para não deixar qualquer dúvida sobre quem reinava na América do Sul (por enquanto, apenas no continente!) enfiou um 3x0, em campo neutro, com Pelé fazendo dois gols, os de número 497 e 498.


Como naquela época não havia essa história de poupar jogador, a comemoração pelo título da Libertadores foi brevíssima. Domingo tinha clássico com o São Paulo, era preciso defender a liderança do Paulistão para seguir firme e forte rumo ao tricampeonato estadual. O objetivo do Peixe era ganhar tudo que disputasse, não importando o tamanho da taça. Bons tempos!


O técnico Lula pôs em campo praticamente o mesmo time que goleara o Peñarol, em Buenos Aires. A exceção ficou por conta de Mengálvio, que, machucado, deu lugar a Tite. Mas o placar da Vila Belmiro mostrava um surpreendente “0x2 Visitantes” em apenas 22 minutos de bola rolando.


Cansado ou não, no entanto, o Santos era o Santos. Três minutos depois dos são-paulinos comemorarem o segundo gol, os donos da casa diminuíram com Pelé, cobrando pênalti. Gol número 499. Aos 34 minutos, Coutinho dá o passe para o 500º gol de Pelé, o do empate. Antes do final do primeiro tempo, Dorval ainda marcaria o terceiro santista, numa virada espetacular. Aos 40 do segundo, Sabino fez para os tricolores deixando o placar em 3x3.


No dia 5 de dezembro, já com a faixa de campeão mundial no peito, após meter 5x2 no Benfica, em Lisboa, por uma ironia do destino, o Santos reencontra o São Paulo, desta vez no Pacaembu. Os santistas golearam novamente por 5x2 e garantiram o título estadual com duas rodadas da antecipação.


A Gazeta Esportiva estampou: “Noite de <<olés>> no Pacaembu: Santos fêz a festa do <<tri>>!”. Marcaram Coutinho, Dorval (2), Pepe e Pelé, já com 500 e tantos gols feitos.