Ademir e os seus primeiros passos na trilha dos Da Guia



Em meio à Segunda Guerra Mundial, no dia 3 de abril, dona Erotildes dava a luz a uma saudável criança, pesando quase cinco quilos. Ao lado dela, no leito da maternidade, o pai realizava um sonho. Desde a primeira gravidez da esposa, desejara um filho, o seu herdeiro. Veio Solange, que não recebeu menos carinho e cuidados por isso. Agora, não. Chegava a vez de Ademir, o que daria continuidade à saga dos Da Guia, iniciada pelo seu irmão mais velho, Luís Antônio. Era o que o pai desejava, premonizava.


Aos 30 anos, Domingos da Guia era um dos melhores jogadores do continente. Além de três títulos do Brasileiro de Seleções, quatro cariocas, havia conhecido a idolatria e o reconhecimento dos vizinhos uruguaios e argentinos, pelos quais levantou taças pelo Nacional e Boca Juniors. Mesmo ainda com planos de continuar encantando multidões com a sua classe e eficiência, o Divino Mestre queria um herdeiro.


Nem sempre a genética se comunica muito bem com o futebol. No caso dos Da Guia, a tabelinha foi perfeita. Ademir, cujo nome foi inspirado num jovem e promissor atacante, recém-chegado ao Rio de Janeiro naqueles primeiros meses de 1942 e que viria a ser artilheiro de uma copa do mundo oito anos depois, iniciou sua vida esportiva longe do piso duro e esburacado dos campinhos de várzea.


Foi na fluidez da piscina do Bangu que o filho do grande Domingos da Guia teve as suas primeiras experiências com a competição no esporte. Mas o futebol fez seu irresistível chamado, e lá se foi Ademir a correr atrás de uma bola nos campinhos de piso duro e esburacado do bairro, cuja única preocupação era não ser visto pelo professor de natação jogando pelada. Era proibido.


Naturalmente, optou pelo futebol e pode bater bola na rua sem maiores sustos. Até que aos 14 anos, ao lado dos amigos Helinho, Dorval e Zé Maria, esta escolha tomava um caminho mais definitivo. Ademir fez um teste no campo do Bangu e foi aprovado. Inicialmente, queriam que ele fosse zagueiro, como o pai. Neste ponto, apenas neste ponto, a hereditariedade foi posta de lado.


“Ele nasceu sabendo jogar futebol. Já sabia dar o seu estilo ao time. Protegia a bola, tocava e lançava bem, jogava com sabedoria”, analisava o orgulhoso Domingos, sem se deixar levar pelo coração.

O garoto era diferenciado, sim. Foi subindo rápido de categoria, chegando ao juvenil do Bangu, treinado por Elba de Pádua Lima, o Tim, um dos primeiros gigantes do futebol brasileiro a vestir a camisa 10.


E a quem Ademir é grato até hoje pelos seus ensinamentos. Tim, no entanto, não foi o único craque a contribuir com o futuro do filho de Domingos. Logo após ser integrado ao time de cima do Bangu, ele ainda teve o privilégio de ser treinado por ninguém menos do que Zizinho. Antes, por muito pouco, o meia não havia se transferido para o Santos.


Domingos já enxergava a dimensão do futebol de Ademir e partiu com o filho para São Paulo. Sua intenção era leva-lo para um teste no Corinthians, clube que havia defendido por quatro após deixar o Flamengo. Mas mudou de ideia no meio do caminho e o levou para o Santos. Ademir treinou muito bem, e foi aprovado. Mas houve uma divergência quanto ao salário a ser pago e a transação ficou pendente.


De volta ao Rio, Ademir integrou com bastante louvor a equipe do Bangu campeã carioca de 1959 de juvenis. A estrada para o time principal estava totalmente pavimentada. No ano seguinte, embarcou para os EUA, onde conquistou o Torneio de Nova York, enfrentando grandes clubes europeus. Em 1961, retornou à América para nova disputa. Faltou pouco para o bi, mesmo assim o camisa 10 encheu os olhos dos dirigentes do Barcelona na derrota por 4x3.


De volta ao Brasil, Ademir já não era “apenas” o filho de Domingos, uma promessa. Mais realidade, impossível. E como tal, o pai o negociou com o Palmeiras: luvas de 800 mil cruzeiros e salários de 60 mil. Aos 19 anos, ele já chegava grande ao clube onde se tornaria ídolo máximo.



P.S.: Foto publicada na biografia de Ademir da Guia.


FICHA TÉCNICA


Divino, a vida e a arte de Ademir da Guia

Editora Gryphus (2001)

Kleber Mazziero de Souza

220 páginas