Abrindo o 'Agosto de Nelson', a profecia do reinado de um garoto



Quando Nelson Rodrigues disse que o maior cego é aquele que vê apenas a bola, ele afirmava com todas as letras, e os espaços entre elas, que o ‘futebol não é apenas um jogo’, ou é ‘muito mais do que futebol’, como queiram, máximas hoje repetidas por todos aqueles que têm absoluta certeza de que futebol não é um mero entretimento. Como alguns cegos, para não chama-los de cretinos, vez por outra, tentam nos fazer crer.


Lá por meados do século passado, Nelson já enxergava toda dramaticidade que envolve uma partida, nunca iniciada e encerrada ao apito do juiz, mas antecipada e estendida por vários dias. Algumas, inclusive, teimam em não terminar, se eternizam. Ele foi o primeiro a compreender a verdadeira dimensão do futebol na vida e na alma do brasileiro, da sociedade, do país.


E é com muito prazer, prazer redobrado, que o Blog 12 Gomos dá o pontapé inicial na série Personagem do mês: Agosto de Nelson Rodrigues. No próximo dia 23, o pernambucano mais carioca do planeta completaria 107 anos. Nas 68 primaveras em que esteve do lado de cá da existência, Nelson escreveu centenas de crônicas publicadas em Manchete Esportiva, Jornal dos Sports, Última Hora e O Globo, e reunidas em diversos livros.


Crônicas e livros a serem esmiuçados para o nosso deleite e, esperamos também, dos nossos leitores. Para não perder tempo, um texto em que o nosso homenageado vai tão além da sua apuradíssima percepção do futebol que chega a ser profético. No dia 8 de março de 1958, Nelson assina a sua coluna Meu personagem da semana, na Manchete Esportiva, a qual começa assim: “Depois do jogo América x Santos, seria um crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana.”


Não custa lembrar que a Suécia demoraria ainda uns três meses para ver a bola rolar pela Copa do Mundo, que Pelé era apenas uma promessa do Santos, de 17 anos... “O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: a de se sentir rei, da cabeça aos pés”.


O referido jogo é válido pelo Torneio Rio-São Paulo, disputado na semana anterior à publicação da crônica, vencido pelos santistas por 5x3, no Maracanã. Pagão marcou um dos gols dos visitantes, mas sequer foi citado no texto. Afinal, Pelé marcou quatro. Menos pela quantidade, mas pela maneira, pela atitude como foram feitos os gols, Nelson se antecipa ao calendário para cravar o que acontecerá no mundial.


Após descrever um dos gols do futuro Rei, escreve: “Ora, para fazer um gol assim não precisa apenas o simples e puro futebol. É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, de certeza, de otimismo que faz de Pelé um craque imbatível (...) Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizar diante de ninguém. E é desta atitude viril e, mesmo, insolente de que precisamos”.


Nelson, que já havia diagnosticado o sentimento de inferioridade do brasileiro como a causa dos fracassos nas copas de 1950 e 1954, arremata a profecia. “Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós”. Viva Nelson Rodrigues!



FICHA TÉCNICA


O berro impresso das manchetes

Nelson Rodrigues

Editora Agir (2007)

540 páginas