A saga de um desbravador chamado Ademir Queixada de Menezes



A passagem pelo Recife do Transatlântico Arlanza, em maio de 1938, foi decisiva para que um garoto de 15 anos, conhecido nas peladas da Praia do Pina não apenas pelo proeminente queixo mas também pela facilidade com que fazia a bola chegar ao gol, decidisse ser jogador de futebol pra valer. A bordo, a seleção brasileira de futebol. Destino: a França.


Ao contrário do que acontecera nas duas edições anteriores, o Brasil levava o que havia de melhor para a copa do mundo. Craques como Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Tim, Romeu formavam uma equipe forte, embora a organização dentro e fora de campo não acompanhasse o nível técnico dos jogadores.


O futebol também fazia cada vez mais parte do dia a dia dos brasileiros, de canto a canto do país. As ondas do rádio traziam as proezas dos maiores nomes do esporte nacional, especialmente dos times do Rio de Janeiro, feito música aos ouvidos de quem começava a se encantar com a melodia daquele jogo de bola.


E a estada da seleção no Recife era uma oportunidade única para garotos como Queixada ver com os próprios olhos os craques que até então só ouvira falar. Numa tarde de domingo, o técnico Ademar Pimenta realizou um treino no campo do América. Na arquibancada, inicialmente, estava o juvenil do Sport Ademir Marques de Menezes e seus amigos.


Mal o treinamento havia chegado ao final e ele já estava dentro de campo buscando o contato com os seus ídolos. Meia-atacante, Ademir logo se aproximou de Tim, talvez o primeiro camisa 10 clássico do futebol nacional. Leônidas também foi procurado pelo magrelo, alto, de queixo desproporcional.


A seleção brasileira embarcou no Arlanza novamente na segunda-feira e partiu, desta vez, sem mais escalas para Paris, onde conseguiria a sua até melhor colocação em uma copa do mundo: o terceiro lugar. O futebol continuava, e agora mais do que nunca, em primeiríssima posição para o jovem Queixada. Para desgosto da mãe, dona Othilia, que cultivara entre os seus filhos a busca incessante por um diploma.


Mas não para o pai, Antônio Menezes. Ou Menezes. Ou coronel Menezes. Comerciante e diretor de remo do Sport, ele tinha orgulho do que falavam a respeito do seu Ademir: o incrível sprint, a velocidade de raciocínio, a potência e precisão com que batia na bola com os dois pés. E bancou em casa o primeiro contrato como jogador de futebol de Ademir, que escolhera cursar Odontologia como uma maneira política de não desagradar tanto a mãe.


Depois dos primeiros títulos como juvenil, Queixada conheceu o sabor da conquista no quadro principal do clube, em 1941. Mais do que isso, tornou-se artilheiro do Pernambucano. A temporada, no entanto, reservava ainda muito mais para Ademir. O ano estava chegando ao final, mas ainda restava o campeonato brasileiro de seleções e Pernambuco encararia a Bahia nas quartas de final, no Estádio das Laranjeiras, no Rio.


Foi quando o então presidente do Sport Luís Oiticica teve uma grande sacada. Como o clube cedera sete atletas para a seleção pernambucana, por que não aproveitar que mais da metade da sua equipe estaria no Rio de Janeiro e embarcar o restante dos jogadores e comissão técnica para uma excursão pelo sul e sudeste?

A ideia chegou a parecer absurda. E tão surpreendente quanto, foram os resultados. O Sport fez amistoso em Belo Horizonte, São Paulo, Curitiba, Joinville, Porto Alegre e no Rio. Em 17 jogos, 11 vitórias, dois empates e quatro derrotas. O Leão mostrava a cara (e as garras) para o sul do país e melhor impressão não podia deixar.


Os primeiros minutos do penúltimo amistoso, diante do Vasco, em São Januário, deram uma outra impressão. Rapidamente, os donos da casa abriram 3x0. Sem maiores dificuldades. Aquele time do norte que vinha fazendo bonito na excursão não era páreo para os vascaínos. Talvez não fosse se entre os seus jogadores não estivesse um tal de Ademir.


Ele fez três gols e construiu as jogadas para os outros dois da sensacional virada dos pernambucanos. Mais do que a vitória por 5x4, o que chamara a atenção de todos em São Januário, não por acaso, foi aquele jovem de queixo grande. Sua incrível e rara capacidade de fazer gols. Deixou o técnico do Fluminense, o uruguaio Ondino Vieira, boquiaberto, sonhando com a sua contratação, mais uma peça para engrenagem que brigaria pelo tri carioca de 1942.


Para facilitar qualquer eventual contratação de Ademir, estava no Rio, incorporando o grupo que deixou o Recife para se juntar aos jogadores da seleção pernambucana, o seu Menezes. Afinal, além de fazer da diretoria do clube, mesmo que do departamento de Remo, era pai do grande craque daquela delegação. Para facilitar, como dito acima, digamos, em termos logísticos.


Negociar com o pai de Queixada não era nada fácil. Um comerciante de mão cheia. Além do Fluminense, o próprio Vasco partiu com tudo para ter aquele atacante no time. E por tudo pode-se entender até mesmo pagar por algo até então inédito no futebol nacional. Segundo o jornalista João Máximo, no livro Gigantes do futebol brasileiro, seu Menezes inventou a outrora famosa ‘luvas’.


Ademir só seria liberado para jogar no Vasco se, além de um salário alto, no nível de outros já bem famosos no Rio, o clube pagasse luvas de 40 contos. A negociação se arrastou para lá, para cá, até que os vascaínos viram que não teria outro jeito de ficar com o promissor atacante e concordaram com as condições impostas pelo pai-empresário Antônio Menezes.


E nunca houve notícia de arrependimento pelo valor investido em Ademir, que viria a se tornar um dos maiores jogadores da história do clube, com passagem marcante pelo rival Fluminense, seleção brasileira, com direito a artilharia na Copa de 1950, dentre outros dividendos que o futebol nacional, de forma mais ampla, lucrou com aquela transação.


Como escreveu certa vez em sua coluna no Globo Sportivo, nos idos de 1949, o jornalista Mario Filho, o Brasil naquele período era um imenso arquipélago no futebol, com grande e pequenas ilhas que se comunicavam e permutavam jogadores. Pernambuco ainda não estava situado neste mapa. Pouco ou nada se sabia sobre o que acontecia acima da Bahia.


Ademir foi um desbravador neste sentido. Não só ele, mas principalmente ele. Da sua geração, dos seus companheiros de Sport naquela excursão, também viriam a se destacar mais adiante o goleiro Manuelzinho, Djalma, Pinhegas, Zago, Pirombá. E depois de Queixada, a porta estaria aberta para Orlando, que ganharia o complemento de Pingo de Ouro, Rildo, Zequinha...