A precocidade acompanhou o genial Tostão do início ao final da carreira



A precocidade parece estar no DNA dos jogadores excepcionais, aqueles verdadeiramente craques. Com apenas 14 anos, Tostão já fazia parte dos juvenis do América Mineiro, de onde saiu para o Cruzeiro e, aos 16, passou a ser titular da equipe principal. Aos 18, comemorou o primeiro título, o segundo, aos 19, o terceiro, aos 20, o quarto, aos 21.


Foi penta estadual aos 22. Com 23, sagrou-se tricampeão mundial com a seleção brasileira na Copa do México. Aos 26, encerrou a carreira, devido a sérios problemas no olho direito. A precocidade o acompanhou no início e no final. Sua vida de jogador profissional durou apenas 10 anos. Pouquíssimo tempo, sem dúvida. Mas não se pode dizer que não foi intensa.


De volta ao princípio, Tostão estreou pelo América no campeonato juvenil mineiro, em 1961, quando faturou o primeiro título como jogador. Feito repetido no ano seguinte. No Coelho, ele teve contato com o primeiro técnico marcante na sua vida: Biju, um empresário local que gostava de futebol e usava as horas vagas para trabalhar com os garotos da base.


Foi ele que orientou Tostão a estender o horário do seu treinamento diário. Quando os companheiros do juvenil deixavam o gramado para tomar uma chuveirada, aquele adolescente permanecia no campo procurando aprimorar o que ele já tinha de bom, para ficar ainda melhor. Os erros deveriam ser corrigidos nos treinos do dia a dia, junto com os outros atletas.


A dica de Biju foi levada a sério pelo garoto, que, sozinho no gramado, passou trabalhar o passe longo, as arrancadas partindo da meia esquerda, as finalizações. O esforço solitário certamente serviu de combustível para que as coisas acontecem mais rápido na carreira de um jogador já nitidamente diferenciado, com enorme técnica e visão de jogo.


Mas se no América havia um treinador sério e com sensibilidade de para dar conselhos preciosos, faltou no clube dirigentes capazes de lidar com uma joia rara nas suas divisões de base. Afinal, era natural que muitas pessoas estivessem observando aquele time bicampeão juvenil de 1961/62 e o seu melhor jogador.


Uma dessas pessoas, não por acaso, era um diretor do Cruzeiro, que fez uma proposta a Tostão. O garoto não tinha sequer um contrato de gaveta assinado com o América. À rigor, nem precisava procurar a diretoria do Coelho para comunicar o interesse do clube rival. Poderia pegar as coisas e se despedir dos companheiros e técnico.


Mesmo assim, por respeito e consideração, tratou de expor a situação aos diretores. Seu desejo, inclusive, era o de permanecer. Mas o que ouviu o fez mudar de ideia. Como eles achavam Tostão ainda muito jovem para se profissionalizar, chegaram a insinuar que a proposta do Cruzeiro havia sido inventada pelo atleta a fim de pressioná-los a assinar contrato.


Criou-se uma lenda em Belo Horizonte que a Raposa havia passado a perna no Coelho, roubado Tostão do clube. Como o próprio Eduardo Gonçalves de Andrade nos conta no seu livro autobiográfico Tempos, vividos, sonhados e perdidos – um olhar sobre o futebol, Tostão desmente a versão e lembra que, inclusive, o Cruzeiro chegou a pagar uma quantia em dinheiro ao rival para que o então garoto de 16 anos pudesse ser inscrito no Estadual de profissionais de 1963, o seu primeiro.


Além de Tostão, outros grandes jogadores com pouca idade foram chegando ao clube azul neste período, como foram os casos de Dirceu Lopes e Piazza, dentre outros. O Cruzeiro foi armando uma verdadeira seleção para iniciar em 1965 um período de incontestável hegemonia no estadual e se tornar um dos maiores esquadrões do Brasil.


Sua primeira convocação para a seleção nacional aconteceu no início de 1966, ano da Copa do Mundo da Inglaterra, na bizarra lista de 44 jogadores. Era a primeira vez que jogadores fora do Rio e São Paulo ganhavam uma chance. Tostão, Alcindo, do Grêmio, e Nado, do Náutico, foram as exceções. Os dois primeiros formaram uma dupla de atacantes bem afinada no time reserva e foram mantidos no grupo que embarcou para o mundial.


Na Suécia, onde realizava alguns amistosos antes de seguir para Liverpool, local dos jogos da primeira fase da copa, Tostão teve o prazer de jogar pela primeira vez ao lado de Pelé e Gerson, o que só voltaria a acontecer nas Eliminatórias da Copa de 1970.


Como reflexo de uma péssima preparação para o mundial e, lógico, a natural queda de rendimento dos remanescentes da geração do bi mundial de 1958 e 1962, inclusive do próprio Pelé, a seleção brasileira fez um papelão e terminou desclassificado na fase de grupos. Tostão voltou a Belo Horizonte arrasado com a eliminação. O consolo foi uma inesperada festa no aeroporto para a chegada do primeiro mineiro a ir a uma copa.


Mas o craque do Cruzeiro não teve muito tempo para pensar no fracasso de Liverpool. Poucos meses depois, a Raposa chegava à decisão da Taça Brasil contra o supertime do Santos, confronto de uma emergente geração de talentos que vestiam azul diante daqueles homens de branco que marcaram época na história do futebol, mas já sentiam os primeiros dissabores da inevitável curva descendente.


Os resultados foram a prova cabal. No Mineirão, o Cruzeiro deu um passeio e aplicou um golpe duro no time de Pelé e cia.: 6x2. O Santos teve a chance de mostrar, dias depois, que a goleada sofrida havia sido uma fatalidade. Mas não conseguiu. No Pacaembu, os mineiros voltaram a ganhar, desta vez, com um placar mais contido: 3x2.


No festivo vestiário do título, uma situação causou um tremendo mal estar no maior craque entre os craques do Cruzeiro. Um repórter colocou uma coroa na cabeça de Tostão e a foto saiu na primeira página de um jornal, com a manchete: Tostão, o novo rei. E as comparações sobre ele e Pelé passaram a ser frequentes.

Tímido, contido, e principalmente respeitoso, Tostão se sentiu, nas suas próprias palavras, como um usurpador do trono, um picareta. Os três anos até as eliminatórias para Copa do México, quando Pelé voltou a jogar o seu grande e insuperável futebol com regularidade, o atacante do Cruzeiro andou bem incomodado com as comparações.