A praga quase certeira de Arubinha e um sapo que nunca ninguém viu



De fato, a praga foi rogada. Com as mãos entrelaçada, uma quase esmagando a outra, tamanha era a sua dor, joelhos enfiados no meio da lama, o ponta esquerda Arubinha olhou para o céu, que se desmanchava em generosos pingos de chuva, e falou com Deus. Melhor, suplicou para que o Vasco da Gama amargasse por 12 longos e tortuosos anos sem título.


Segundo consta, a história aconteceu. Foi numa noite de quarta-feira do ano de 1937. O time lusitano tinha um match diante do Andaraí. Um daqueles jogos que o torcedor, mesmo o adversário, já marcava na sua tabela do campeonato os dois pontos para o Vasco antes da bola rolar. E, especialmente naquela noite, a bola teria uma dificuldade enorme de rolar.


Um temporal desabara desde a manhã, permanecera pela tarde e até havia dado uma encorpada à noite. O que se via do campo eram pequenos tufos de grama, como se boiassem num rio. O juiz da peleja foi até o local e disse que dava para jogar. Afinal, já estava ali mesmo, ensopado do fio de cabelo ao dedo menor do pé. Melhor enfrentar e realizar a partida. Nada de remarcar.


Trilou o apito três vezes. Não demorou para que dezenas de repetidos splashes fossem ouvidos, na direção do vestiário do Andaraí. O time estava em campo para o que desse e viesse. O Vasco, não. E demorou. E demorou. O juizão apitou mais forte, desta vez, achando que os vascaínos não haviam escutado. Nada do time. Na porta do vestiário cruzmaltino, só se ouvia o gotejamento da água que minava do teto.


Logo depois veio a notícia de que havia acontecido um acidente com os carros que traziam o time do Vasco para o campo de jogo. Alguns jogadores, inclusive, haviam sido levados para o hospital. “E nós, o que faremos?”, perguntou, ansioso, um jogador do Andaraí para o juiz. “Posso abrir contagem de quinze minutos. Se o Vasco não chegar, vocês ficam com os dois pontos. Ou podem esperar”.


Apesar da tentação pela oportunidade quase única de poder somar pontos diante de um grande, os jogadores do Andaraí respiraram fundo e resolveram aguardar o adversário. “Só espero que o Vasco não abuse”, sentenciou Arubinha, temendo por uma goleada humilhante. Mas foi logo levado a crer pelos companheiros que o Vasco não teria tanto ímpeto assim logo após um acidente.


Enfim, os vascaínos chegaram e o jogo pôde começar com mais de uma hora de atraso. O que não tardou foi a chuva de gols. O primeiro tempo terminou com 5x0. Inquieto, Arubinha foi novamente contido pelos outros jogadores do time, no vestiário. O Vasco se daria por satisfeito com os cinco e não forçaria mais no segundo tempo. O que não seria de todo ruim para o Andaraí.


Estavam errados. A partida recomeçou e a enxurrada de gols foi maior. Foram mais sete sacolejos no filó andaraiense. 12x0 no último sopro do juiz. Ninguém mais impediu. Arubinha se ajoelhou no meio do lamaçal e rogou aos céus. Para cada gol sofrido, um ano sem título o Vasco passaria.


Nos conta o grande Mario Filho, que além da praga, o jogador do Andaraí ainda teria ido a São Januário, escavado em algum canto do gramado e enfiado terra abaixo um sapo, como que para não correr risco de que as suas súplicas deixassem ser cumpridas. Se fato, lenda ou apenas delicioso molho para uma daquelas sensacionais histórias do nosso futebol, ninguém afirma.

Certo mesmo é que os anos foram passando, passando, e apesar de montar excelentes equipes, de investir em craques da época, o Vasco não conseguia ser campeão. Algo de inesperado, contrariando qualquer previsão, acontecia e o time cruzmaltino via o título escapar por entre os dedos.


Ninguém dentro do clube, e fora também, tinha dúvida: era a praga de Arubinha. Diretores do clube chegaram a levar o jogador do Andaraí para São Januário na esperança de que por alguns trocados ele revelasse o local em que enterrara o sapo. “Não enterrei sapo algum”, respondia, sempre. Ninguém acreditou e o gramado foi todo escavado e reescavado em busca dos restos mortais do pobre sapo, que nem se sabe se de fato existiu.


O sapo de Arubinha foi o título de uma crônica de Mario Filho publicada em 1954 no jornal e que depois deu nome ao livro que reúne alguns dos textos mais primorosos deste grande nome da literatura e jornalismo esportivos nacional.


Em tempo: o Vasco passou 11 anos sem ser campeão. Mas, segundo o próprio Mario Filho, é preciso dar um desconto quando o assunto é praga.



FICHA TÉCNICA


O sapo de Arubinha, os anos de sonho do futebol brasileiro

Mario Filho (seleção das crônicas e notas de Ruy Castro)

Editora Companhia das Letras (1994)

248 páginas