A inusitada provocação e o bico de Serginho em Leão


A carreira de Serginho Chulapa foi construída com muitos gols – não a toa é o maior artilheiro da história do São Paulo – e confusões, dentro e fora de campo. Uma das mais marcantes, até mesmo por ter acontecido numa final de Brasileirão, foi a agressão ao goleiro do Grêmio Emerson Leão, talvez o personagem que encabece a concorrida lista de desafetos do camisa 9, que também foi ídolo do Santos.


Era o segundo jogo da decisão do Campeonato Brasileiro de 1981. Com mais de 95 mil torcedores no Morumbi, os donos da casa entraram em campo em desvantagem. No Olímpico, os gaúchos haviam vencido de virada. O próprio Serginho, aos 43 do primeiro tempo, abriu o placar. No segundo, Paulo Isidoro, um dos craques daquele Brasileirão, marcou aos 10 e aos 24.


Em Sampa, os primeiros 45 minutos foram tensos e sem gol. Antes da metade da segunda etapa, Baltazar faz um golaço da meia lua da área são-paulina, no ângulo, sem a menor chance de defesa para Waldir Peres. O time treinado por Carlos Alberto Silva vai com tudo para cima dos visitantes. Pressão total, com o São Paulo perdendo chances claras de gol.


Numa delas, o centroavante paulista invadiu a área pela direita e, perto da linha de fundo, deu um lindo drible em Leão e rolou a bola para seus companheiros na pequena área. Renato e Zé Sérgio tentam botar para dentro mas são bloqueados pelo paredão formado por Hugo De León, Newmar, Paulo Roberto e China.


Pouco depois, aos 43 minutos, o pavio de Serginho chegava ao final. O zagueiraço uruguaio De León faz um recuo para Leão, que dá uns passos para o lado com a bola nos pés a espera da aproximação do camisa 9 adversário para, enfim, segurá-la com as mãos. Mas Serginho não perde a viagem. Chega duro, com o ombro, no peito do goleiro, que fica caído no chão.


Não satisfeito, depois de deixar a pequena área, Serginho dá meia volta e se aproxima de Leão para, como o bico da chuteira, acertar a cabeça do adversário estirado perto da linha do gol. A agressão não havia sido a primeira na carreira do atacante. Pelo contrário. Na lista tem até um pontapé num bandeirinha, Vandevaldo Rangel, em 1978.


A diferença do bico em Leão para outras confusões em que Serginho se envolveu foi o motivo. A rixa entre os dois, que não eram do tipo de levar desaforo para casa, havia começado na primeira partida da final, em Porto Alegre. A partir de uma informação inusitada que o goleiro obteve nos bastidores.


Segundo conta o jornalista e escritor Wladimir Miranda em ‘O artilheiro indomável, as incríveis histórias de Serginho Chulapa’, o são-paulino sofria os diabos com uma hemorroida, que chegava a sangrar bastante. Por orientação do então médico do clube, José Carlos Ricci, Serginho passou a usar absorvente em dias de jogos.


“O que é que há, negão, está menstruado? Usando ‘Modess’ agora?”, passou a provocar Leão. Aos 43 do segundo tempo, com o jogo e o título brasileiro praticamente perdidos, Serginho foi à forra.

A história contada pelo empresário do atacante na época, Eriberto Monteiro, não foi desmentida pelo agressor. Mas pelo agredido. Leão negou veemente que tenha provocado Serginho em qualquer momento das duas partidas decisivas, que era profissional e não fazia gracinhas.


Não custa lembrar que, três anos antes, também na decisão de um Brasileiro, também no Morumbi, quando defendia o Palmeiras, Leão esteve no papel de agressor. Incomodado com o habilidoso e endiabrado garoto de 18 anos, o camisa 9 do Guarani que atendia por Careca, o goleiro soltou o cotovelo no rosto do adversário.


Pior desta vez porque a bola estava em jogo: pênalti e cartão vermelho para Leão. Zenon marcou na cobrança e deu a vitória no primeiro jogo. No segundo, no Brinco de Ouro, foi o próprio Careca que marcou o gol e garantiu o título ao time de Campinas.


FICHA TÉCNICA


O Artilheiro indomável, as incríveis histórias de Serginho Chulapa

Wladimir Miranda

Editora Publisher Brasil (2011)

128 páginas