Como Pelé descobriu 'a menina' e 'o véu da noiva', por Mario Filho



- Vou mandar Pelé para a pensão do Raimundo. O Raimundo tinha aberto uma pensão, cobrava de três a quatro mil cruzeiros por mês, casa e comida. Dona Georgina, a dona Jô, estaria sempre por perto, feito uma mãe.


O Raimundo era o Rai. Fôra do escrete olímpico de basquete em Helsinque. Era um grande papo, com a alegria do negro. Chamava a bola de menina. Para êle, a cesta era o berço. Contando como fizera uma cesta, dizia:


- Botei a menina adormecida no berço.


Pelé não se cansava de ouvir o Raimundo. Deu para chamar também a bola de menina. Era uma menina. A namorada, para ele a primeira namorada, para quem se jura, sinceramente, o amor eterno. Não a noiva nem a mulher. Não pensava em noiva, em mulher muito menos, que se lembrava da experiência que tivera em Bauru. Na menina, sim. Era a bola.


- O que interessa – Raimundo falava com a euforia de quem conta uma anedota – é balançar o véu da noiva.


- O véu da noiva?


E Pelé já havia imaginado uma história imprópria, de mulher. Nada disso: o véu da noiva era a rêde, branquinha, sempre virginal, por mais que fôsse balançada.


O filho de Dondinho havia chegado há pouco em Santos, vindo de Bauru. Modesto Roma, um dirigente do clube, não via a hora daquele garoto vir a ser o melhor futebol do mundo, como havia sido profetizado por Valdemar de Brito, responsável pela ida de Pelé para o Peixe. Mas Pelé tinha apenas 15 anos. Enquanto sonhava com esse dia, o diretor tratava de cuidar do futuro melhor jogador do planeta.


Para evitar as más influências que habitavam a concentração, e que, no caso, atendia pelo nome de Vasconcelos, Modesto Roma decidiu trocar a moradia de Pelé, um adolescente do interior recém-chegado à cidade grande, cedesse aos insistentes convites do boêmio que dividia quarto. Além do mais, “concentração era bom para antes do jogo, não o tempo todo”, como justificava a decisão de levar o garoto de mala e cuia para a pensão de seu Raimundo.


A história acima está em Viagem em torno de Pelé, uma biografia do maior jogador de todos os tempos, publicada em 1963, ou seja, quando Pelé havia conquistado ‘apenas’ duas copas do mundo e um minguado título do mundial interclubes. O segundo, no final do mesmo ano de 1963, e a terceira copa, sete anos depois, além de inúmeras outras conquistas do Rei, ficaram de fora.


Certamente, uma nova edição teria sido lançada após 1970 se Mario Filho não tivesse falecido quatro anos antes. Mesmo assim, o livro é uma relíquia, e vale muito o esforço para encontra-lo em algum sebo e os reais cobrados, principalmente porque Mario Filho está para o jornalismo e literatura esportiva do país assim como Pelé está para o futebol.


Voltaremos a falar sobre Viagem em torno de Pelé mais adiante. Algumas vezes, inclusive!