A estreia de Leônidas na seleção: de 'negro safado ladrão' a ídolo



O ano era 1932. O profissionalismo dava os seus primeiros passos, ainda bem trôpegos, no futebol brasileiro. Como de costume, Amea (Associação Metropolitana de Esportes Atléticos), do Rio, e a Apea (Associação Paulista de Esportes Atléticos) estavam em pé de guerra, desta vez, por uma confusão num duelo entre as respectivas seleções.


No meio, a CBD (a CBF da época), tentando montar uma equipe para cumprir a segunda partida válida pela Copa Rio Branco, diante dos campeões mundiais uruguaios, em Montevidéu. Jogadores de São Paulo não seriam liberados, já havia alertado a Apea. A solução seria montar uma seleção com os cariocas.


O problema era que alguns dos grandes clubes excursionavam país afora, reduzindo o leque de opções para convocar uma seleção que pudesse representar o país frente à poderosa Celeste. Seria preciso chamar jogadores de clubes pequenos do Rio para completar o grupo, como o Bonsucesso, de Leônidas da Silva.


Apesar dos 19 anos, Leônidas já era reconhecido pela grandeza do seu futebol, pelo seu jogo elástico, acrobático, de enorme capacidade de domínio e trato com a bola, de extrema movimentação em campo, de finalização perfeita. Mas também pelo seu temperamento.


Por causa de uma acusação de roubo por parte de uma mulher com quem tivera um relacionamento durante excursão a São Paulo no início daquele ano, o jovem craque entrava e sai de campo ouvindo xingamento das torcidas adversárias: “Devolve o colar, negro safado”. A resposta vinha em forma de gestos obscenos para a arquibancada.


Sabendo da acusação do colar, o presidente da CBD, Renato Pacheco, foi contra a convocação de um jogador que havia ficado com fama de ladrão. Deu ordens para que ele não embarcasse. Foi in loco conferir. Mas graças à habilidade do presidente da Amea, Rivadávia Correa Meyer, e à posição firme do técnico Luís Vinhaes, Leônidas seguiu a bordo do transatlântico Duílio rumo a Montevidéu.


A notícia de que a Seleção brasileira seria composta em sua imensa maioria por jogadores desconhecidos atiçou a torcida uruguaia. Seria uma barbada, momento ideal para vingar a derrota (2x0) do primeiro jogo da Copa Rio Branco, nas Laranjeiras, em 1931. E com sobras. No caminho do hotel para o estádio Centenário, um muro pichado com carvão chamou a atenção dos jogadores: “Uruguaios cinco, brasileiros zero”.


“Hoje eu vou comer a bola”, reagiu, de imediato, Leônidas, sabendo que seu futuro na Seleção brasileira passava por aquela partida. Precisava jogar muito, marcar gols, para voltar ao país por cima.

A bola mal rolou no gramado do Centenário e Leônidas passou a devorá-la. Era ele quem ditava o ritmo frenético da seleção brasileira tomando conta da partida. Foi dele, nos primeiros minutos, o gol que abriu o placar.


Atordoados, os donos da casa passaram a descer o sarrafo no novato. O capitão uruguaio Nasazzi entrou com tudo no seu tornozelo no final do primeiro tempo. Foi para o vestiário mancando. Voltou também mancando para o segundo tempo. Ele queria jogar de todo jeito.


E aí veio o segundo gol. Do seu campo, Leônidas deu uma bicicleta, um lançamento de 50 metros para Válter puxar o contra-ataque, e partiu em altíssima velocidade para a área uruguaia, onde reencontrou a bola, pegando de primeira o cruzamento do ponta. Vibração ensandecida da delegação brasileira no estádio, que aos poucos ganhou aplausos dos torcedores uruguaios.


Leônidas levou ainda outra pancada forte e deixou o gramado. Viu do lado de fora o Uruguai diminuir o placar e quase chegar ao empate. No final do jogo, foi carregado pelos companheiros nos braços. Pelos torcedores na chegada ao Rio. Nunca mais foi chamado de ‘negro safado, ladrão’ etc. Que estreia na Seleção brasileira!



FICHA TÉCNICA


O Diamante eterno, biografia de Leônidas da Silva

André Ribeiro

Gryphus Editora (1999)

304 páginas